O Jardim

Photo by Suzano Magalhães
(www.olhares.com/suzano)
Deu-me vontade de chorar. Queria muito ajudar Abel. Mas o que é que eu podia fazer naquele momento? Tinha que esperar pela altura certa para fazer as coisas. Fechei a porta e tranquei-a, dirigindo-me depois para o jardim.
Era um jardim lindíssimo e bastante grande. Tinha árvores, arbustos, canteiros cheios de flores, mas há muito tempo que ninguém ia lá. As flores mal se viam no meio das ervas daninhas. O relvado tinha atingido uma altura tal que nem dava para andar em cima sem tropeçar. O céu estava limpo, não se via nem uma núvem, mas a luz do sol parecia ter dificuldade em chegar àquele lugar. Era como se um véu invisível cobrisse toda aquela área, dando-lhe um ar sombrio, onde apenas alguns raios dourados conseguiam iluminar certos e determinados cantos.
Pus-me ao lado da Elisete.
- O que era aquele barulho? – perguntou ela.
“Ups!”
- Ah, nada! A porta do ginásio fechou com força quando abri a porta cá de fora. Deve ter sido uma corrente de ar…
- Uma corrente de ar…?
- Sim. – disse eu, encolhendo calmamente os ombros – Uma corrente de ar.
- Que estranho. A nossa cave nunca teve correntes de ar. Pelo menos, que eu tivesse dado conta…
Apontei para a extensão verde à nossa frente:
- Tenho que dizer que este jardim é realmente… qualquer coisa de extraordinário.
Rezei silenciosamente para que ela não fosse à cave outra vez, e desse de caras com as coisas derrubadas pela “corrente de ar” no meio do corredor.
- As folhas estão agora a começar a mudar para as cores do Outono. – observou Elisete, desviando o olhar para as árvores – Este é um lugar muito agradável nesta altura do ano.
- Espero que não se importe que eu o diga, mas devia mandar arranjar este jardim, sabe? – sugeri eu – Para dar uma melhor impressão aos clientes.
- Tem razão. – concordou Elisete – Eu vou contratar um jardineiro para vir cá amanhã.
Ela tornou a olhar para as árvores:
- Fiquei tão contente quando vi que as árvores não tinham sido destruídas pelo incêndio. Ficaram chamuscadas, mas foi possível recuperá-las. O meu pai adorava vir aqui. Ele costumava pendurar uma rede entre aquelas duas árvores ali, quando estava bom tempo.
Ela apontou para duas árvores no fundo do jardim e sorriu:
- Ele passava tardes inteiras ali, a ler livros e a recitar poesia.
Elisete cruzou os braços, continuando a sorrir sonhadoramente:
- Ele era um homem extraordinário.
- Acredito. – disse eu, olhando discretamente para a porta da cave atrás de nós.
- Espalhámos as cinzas dele pelo jardim, sabe?
Desviei de novo o olhar para ela, surpresa:
- Como?
- Espalhámos as cinzas dele pelo jardim. Assim, ele estará sempre connosco. Ou pelo menos, foi o que pensei na altura.
“Isto explica muita coisa.”
- Isto é… muito poético. – disse eu.
- Também achei que sim.
Tornei a olhar disfarçadamente para a porta da cave:
- Er… Elisete?
- Sim?
- Por acaso tem consigo o comando para abrir o portão da garagem?
Elisete fez que sim com a cabeça:
- Sim, nós temos dois comandos. Estão dentro de casa. Posso mostrar-lhe onde estão guardados.
- Sim, por favor.
- Então, vamos por aqui. – disse ela, virando-se para a casa.
Voltámos à casa, entrando pelas portas envidraçadas do terraço, onde aproveitei para lhe falar dos vasos Ming que se tinham partido no tornado da véspera, e que eu tinha esperanças de que não fossem vasos Ming. Claro que não fiz qualquer referência a tornados. Eu apenas mencionei “ventos fortes”.
- Isto está sempre a acontecer. – disse Elisete – Estas janelas volta e meia abrem-se de repente, com o vento. Não sei porquê. Isto não acontecia antes do incêndio.
“Pois, imagino que não.”
- A sério?
- Sim… Mas não diga isso aos clientes. – pediu ela, com um sorriso embaraçado.
- Claro que não.
- E não se preocupe com os vasos. Não eram nada de especial.
Elisete dirigiu-se à cómoda que estava por baixo do enorme espelho de onde eu tinha feito o Abel sair, e abriu uma gaveta:
- Os comandos estão aqui. – disse ela, estremecendo um pouco de frio – Eu tenho de ir buscar o casaco.
- Está bem.
Ela foi até ao bengaleiro, vestiu o casaco e voltou para o pé de mim, cruzando os braços e aconchegando-se no casaco.
- Está a ficar mais fresco. – comentou ela.
Eu não tinha dado por isso mas estava realmente a ficar mais frio. Achei aquilo estranho e olhei para o meu relógio. Nem sequer eram três horas da tarde. E ainda sentia os pés gelados. Quando voltei a olhar para a Elisete, ela tinha novamente fixado os olhos no sítio onde o seu pai tinha perecido, onde agora estava um novo e luxuoso sofá:
- Meu pobre pai… Estava tão doente naquela manhã, no dia em que morreu. Era suposto ele vir connosco a Setúbal, para o fim-de-semana, mas ele não se sentia com disposição de sair de casa. E então, deixámo-lo ficar aqui.
Ela virou-se para as janelas, e os seus olhos fixaram-se no jardim lá fora:
- Depois, quando chegámos a Setúbal, o Carlos recebeu um telefonema da empresa dele. Era um problema qualquer… Grave. Ele teve de pegar outra vez no carro e voltar para Lisboa… Quer dizer, para Sintra. A empresa dele é em Sintra. De qualquer maneira, daí a algumas horas, ele telefonou-me daqui de casa, a dizer-me que tinha resolvido o problema mais depressa do que previsto e que tinha passado por aqui, só para ver se o meu pai estava bem. Eu ainda falei com o meu pai ao telefone…
Elisete olhou para o chão. Eu percebi que ela tinha lágrimas nos olhos mas a voz dela estava firme:
- E insisti, insisti, insisti para ele vir com o Carlos para Setúbal. Os pais do Carlos vivem num apartamento muito confortável, e tinham um quarto extra para ele passar o fim-de-semana. Insisti tanto… Mas ele não quis vir. Não estava nada bem-disposto nem com vontade de se meter no carro e vir para baixo. Quando ele se despediu, disse-me para tentarmos todos descansar e divertirmo-nos. Sugeriu darmos um passeio de barco pelo Sado com as crianças, para ir ver os golfinhos. Garantiu-me que se encontrava bem o suficiente para estar sózinho, mandou-me beijinhos, e… Foi a última vez que falei com ele.
Ela olhou para mim:
- Horas depois, recebíamos um telefonema da Marta, a dizer que a casa tinha explodido.
- Marta?
- Marta Oliveira, a vizinha da frente. Ela ligou-nos primeiro que a polícia.
- A polícia?
- Sim, a polícia é chamada sempre que há fogo numa casa ou numa loja…
Elisete fez uma pausa e depois continuou:
- Suspeitaram logo de fogo posto, claro, porque o Carlos tinha estado aqui naquela mesma tarde. Deslocaram-se até Setúbal de propósito para o prender. Ridículo!
Ela abanou a cabeça:
- Foi um dos piores dias da vida do meu marido. Primeiro, o problema que teve de resolver na empresa, fazendo-o conduzir horas e horas de um lado para o outro, depois de ter viajado até Setúbal. Depois ainda teve a energia e a paciência para aturar o meu pai, passando por aqui para ver se ele estava bem. No final do dia, ele veio novamente até Setúbal, só para ser levado de novo para Lisboa logo de seguida, algemado pela polícia.
- A polícia não leva ninguém preso assim sem mais nem quê.
- As dívidas que o Carlos tinha contraído para a empresa dele eram bastante grandes, e ele não estava a conseguir pagá-las. – confidenciou-me ela – A morte do meu pai beneficiou-me muito, eu herdei tudo o que era dele. Sendo a mulher do Carlos, era óbvio que eu ia pagar as dívidas dele. A polícia pensou que isto era um bom motivo para ele matar o sogro, o que não deixa de ter a sua lógica, não fosse o facto de ser um completo absurdo.
- Até espanta que não tenham suspeitado de si, se não se importa que eu o diga.
- Não, não, eles também fizeram-me uma quantidade de perguntas… Mas a polícia concentrou-se logo no meu marido, porque ele é que tinha estado aqui.
- Motivo e oportunidade.
- Precisamente.
Pensei um pouco naquilo.
- Quando a Elisete diz “polícia“, refere-se à esquadra daqui?
- Refiro-me à Polícia Judiciária.
- Então, se eu… – hesitei, sabendo o que queria perguntar mas não sabendo bem como iria ela reagir.
- Sim?
- Se eu fôr depois à Polícia Judiciária indagar… Você importa-se?
Ela encolheu os ombros:
- Não. Porque é que havia de me importar? Mas não percebo o que é que você vai lá fazer. Isto vai ajudar você vender a casa mais depressa?
- Muito provavelmente.
Não era mentira nenhuma. Saber exactamente o que se tinha passado naquela casa era vital para descobrir como ajudar o Abel partir em paz. Estando a casa livre de fenómenos paranormais, já poderia levar para lá potenciais compradores sem correr o risco de ter subitamente coisas estranhas e inexplicáveis a passarem-se mesmo em frente deles. Poder mostrar casas sem ter que chamar ambulâncias no processo era muito importante para o início da minha nova carreira.
- Procure então por um homem chamado João Nobre. – disse-me Elisete – Ele é que foi o investigador encarregado de investigar o incêndio na altura.
Tirei um bloco de notas da minha mala e tomei nota daquele nome.
- Não sei se ele vai falar consigo, mas se fôr preciso, eu falo com ele e peço-lhe para ligar para si. Nós tornámo-nos bons amigos.
- Muito obrigada, Elisete.
- De nada.
- Pergunte-lhe se ela chegou a levar os miúdos a ver os golfinhos.
O meu coração deu um salto. Eu olhei para a Elisete. Ela não tinha ouvido nada.
- Pergunte-lhe.
Muito lentamente, eu virei-me para trás. Ali estava o Abel, com um aspecto normal, caminhando para mim. A Elisete não o conseguia ver mas conseguia obviamente sentir a sua presença. A temperatura mais baixa era um sinal. Pelo menos, o velhote estava mais calmo. Ele passou por mim e continuou a caminhar em direcção à sua filha.
- Elisete, posso perguntar-lhe mais uma coisa, só a título de curiosidade?
Ela olhou para mim:
- O quê?
O Abel estava mesmo ao lado dela.
- Chegou a levar as crianças a ver os golfinhos?
- Sim, por acaso, cheguei. Não naquele fim-de-semana, como deve calcular, mas uns dias mais tarde, logo que o meu marido ficou livre das acusações idiotas que a polícia lhe fez. As crianças precisavam de espairecer um pouco. Eles sentiam imenso a falta do avô. Nesta altura, estávamos a viver numa casa temporária, e a preparar a reconstrução desta. Eles adoravam o meu pai, e eu é que insisti em irmos até ao Sado, porque era o que o avô tinha desejado. Lembro-me de que foi um dia muito feliz, especialmente para o meu filho mais novo.
- Já devem estar grandes, não?
Ela riu-se:
- Já são adultos. O mais velho está na faculdade de medicina, e o mais novo entrou agora na Força Aérea.
- Era o que ele queria! – as gargalhadas felizes do Abel soaram cristalinas – Ele queria ser piloto quando fosse crescido!
- Ena! – soltei eu.
- O mais velho por acaso queria ser o Batman.
- Bom, vamos sair. – pediu Elisete – Está a ficar muito frio, e ainda tenho compromissos a cumprir esta tarde.
- Concerteza.
Ela dirigiu-se à porta de saída, olhando mais uma vez em volta. O Abel estava mesmo à frente dela, com um sorriso feliz. Saímos e ela trancou a porta. Estava mais calor fora de casa.
- Ah, está-se muito agradável aqui fora. – comentou ela, estendendo-me depois a mão – Bom, foi um prazer conhecê-la, Ema. A menos que tenha mais alguma questão em relação à casa que queira ver esclarecida.
Eu apertei-lhe a mão:
- Não, neste momento não tenho mais nada a perguntar-lhe. Muito obrigada por ter vindo.
- De nada. Foi bom para mim ter vindo aqui. Você tem o meu contacto, não tem?
- Sim… Deixe-me dar-lhe o meu cartão.
Tirei um cartão de visitas da minha mala e entreguei-lhe.
- Muito bem. – disse Elisete – Até a próxima, então. Espero que venda a casa muito em breve.
- Eu também.
Despedimo-nos e quando eu ia para o meu carro, vi ela a dirigir-se à casa de Marta Oliveira. Dei uma olhada à Casa do Lumiar, enquanto entrava no meu carro. Vi o Abel num das janelas, semi-escondido entre os cortinados, observando a filha dele com um sorriso feliz nos lábios.
Observei a Elisete tocar a campainha. A porta abriu-se e a velha Marta olhou para a Elisete, primeiro com estranheza, depois com um brilho no olhar, assim que a reconheceu. As duas mulheres abraçaram-se e riram-se, especialmente Marta, que começou logo a tagarelar e a gesticular sem parar. Eu conseguia ouvir a voz dela dentro do carro. Até que de repente, ela calou-se, de olhar fixo na Casa do Lumiar. Segui o olhar dela.
A Marta estava a olhar para a janela onde o Abel tinha estado. Mas ele tinha desaparecido, deixando as cortinas a ondular atrás de si. Quando voltei a olhar para as duas mulheres, Elisete tentava perceber o que se passava com a Marta, que estava agora pálida, como se tivesse visto um… Bem, um fantasma. Elisete seguiu também o seu olhar mas não viu nada de anormal.
E depois elas olharam para mim. Liguei logo o carro e fui-me embora. Precisava de fazer um pouco de investigação e não tinha tempo a perder.