Casas Assombradas, Lda.

As aventuras de uma agente imobiliária

Portais

Casas Assombradas

Fotografia de Asmundur
(www.flickr.com/photos/asmundur)
(www.hdri.wordpress.com)

Eu ainda não tinha visto aquela parte da casa. Como ela tinha sido construída num declive, ainda dava para ter janelas na cave e uma porta de saída para o jardim das traseiras. Havia janelas em quase todas as divisões e as portas do corredor encontravam-se abertas, deixando a luz do dia iluminar um pouco aqueles corredores que mais pareciam umas catacumbas de luxo.

- Se o meu pai fosse vivo na altura da reconstrução da casa, – confessou Elisete, dirigindo-se a uma das portas abertas do corredor – eu duvido muito que deixasse o Carlos gastar tanto dinheiro como gastou nas obras. Eu discutia com ele. Afinal, quem é que manda pôr mármore no chão de uma cave?!

Eu olhei para o chão. Mármore, de facto. E dos melhores. Elisete soltou um suspiro, continuando a andar e revendo toda a cave:

- Mas entre as dicussões e os trabalhos que iam sendo feitos, nasceu esta obra de arte, a casa mais bonita em que já vivi até hoje.
- Sem dúvida. – concordei eu, sem parar de olhar discretamente para as escadas.
- Por exemplo, – anunciou Elisete com um tom orgulhoso de voz – eu considero esta divisão uma das pérolas da casa.

Eu olhei para onde ela estava a apontar. Era uma espécie de ginásio, iluminado pela luz natural do sol que vinha das janelas, e como todo o ginásio que se preze, tinha um espelho gigantesco que cobria uma parede inteira de alto a baixo. Esqueci as escadas por momentos, enquanto olhava estupefacta para o espelho.

- Eu sempre quis ter aqui um ginásio. – continuou Elisete, mesmo ao meu lado – E o meu marido sempre quis ter aqui um estúdio de música. Decidimos então juntar as duas coisas.

Ela apontou para o outro lado do corredor, onde havia uma sala pequena, com o que efectivamente parecia ser um estúdio de gravação de sons.

- É o hobby dele, a música. – finalizou ela, com um sorriso – Deu imenso jeito para as aulas de tango, por acaso.
- Oh, meu Deus…

A Elisete continuou a falar, mas eu já nem a ouvia. Eu não conseguia tirar os olhos do gigantesco espelho. Dadas as condições certas, aquele espelho dava para libertar todas as almas do Limbo.

Não que todas as casas onde exista um espelho gigantesco instalado ao lado de um estúdio de som sejam propícias a ser assaltadas pelos espíritos. É só que havia um espírito à solta naquela casa a abrir portais toda a vez que vinha para cá e o Limbo está repleto de almas ansiosas por sair para este mundo. Se descobríssem os portais por onde o Abel se movia… Bom, digamos que aquela casa ficaria por vender até ao fim dos tempos. E eu nunca mais receberia a minha comissão.

Olhei de novo para as escadas. Já não se ouviam mais passos. O que significava que eu já não sabia por onde é que o velhote andava.

A voz de Elisete parecia vir do fundo do poço:

- Tenho tanta pena que o meu pai não esteja vivo para ver como ficou a casa. Ele teria refilado até ficar rouco com o que gastámos na reconstrução mas eu sei que ele teria adorado a nova decoração.
- Imagino… – comentei eu, distraída, vigiando intensamente os reflexos no espelho.
- Afinal, mantivémos quase tudo. Até pintámos a casa por fora com a mesma côr que antes…
- Pois…
- Vamos para o jardim?

Os portais abertos naquela casa só se fechariam quando o Abel partisse de vez para as Terras Eternas. E tinha que o fazer quanto antes.

- Ema?

De repente, voltei para o presente:

- Sim?
- Então, está distraída? – brincou ela.
- Não, não… Peço desculpa… Este espelho gigante… É fantástico. – olhei em volta – Ninguém diria que isto é uma cave.

Ela sorriu, com alguma tristeza no olhar.

- Eu adoraria ver o jardim agora. – acrescentei eu, muito depressa.

Ela ficou logo mais animada e virou-se para a porta de saída da cave. Eu aproveitei para olhar discretamente para as escadas outra vez, de ouvidos em alerta. Continuei a não ouvir nada e olhei apenas de relance para o espelho gigante antes de seguir atrás da Elisete.

Precisamente naquele momento, um nevoeiro rasteiro branco começou a escapar-se lentamente do espelho, espalhando-se pelo chão do ginásio, e duas pernas enegrecidas emergiram do lado de lá do espelho. Abel, com um ar abatido, caminhou novamente para fora do Limbo, vestido com uns farrapos queimados. Ele olhou para mim, com uma expressão triste. Algures na vizinhança, um cão ganiu.

-Oh, não. – suspirei eu, desalentada – Lá vamos nós outra vez.

Fechei a porta de imediato e tranquei-a, afastando-me logo dela. Apertei as mãos e rezei silenciosamente.

Não resultou, claro. Muito, muito lentamente, a maçaneta da porta começou a rodar. E de repente, a cave ficou gelada. A temperatura desceu tão bruscamente que ouvi as portas a estalarem-se. Por baixo da porta, uma névoa branca começou a escapar-se para o corredor, envolvendo os meus pés num frio gélido. Procurei a Elisete. Ela já tinha saído para o jardim, e felizmente, não veio atrás à minha procura.

- Abel! – exclamei eu, zangada.

O nevoeiro recuou de imediato, desaparecendo completamente por debaixo da porta.

- Você… É um velho… Teimoso! Fique aí até eu vir ter consigo, está bem?! Eu garanto-lhe que que terá a sua oportunidade de falar com a sua filha. Acalme-se!

Fiquei ali por momentos, a olhar para a porta. Nada. Não se ouvia nem um pio. Dirigi-me então para o jardim.

- Agora fiquei com os pés gelados! – refilei eu pelo caminho – Detesto quando isso acontece!

No momento em que abri a porta que dava para o jardim, ouvi um tremendo estrondo atrás de mim. Virei-me de imediato. A porta trancada do ginásio abanava loucamente, e de dentro saía uma luz intensa que iluminava o corredor de forma alucinada e caótica. A violência com que a porta abanava nos gonzos era tal que tive a certeza de que a porta ia explodir ali mesmo e despedaçar-se em mil bocados.

O som de um tornado percorreu o corredor com fúria e o vento chegou até mim, derrubando vários objectos pelo caminho, puxando-me os cabelos para trás. Bateu-me na cara como uma bofetada.

Março 19, 2009 Publicado por C.A.Margonper | 8. Portais, Episódio 1 | | Sem comentários ainda