Memórias

Fotografia de Duartte
(www.olhares.com/etraudez)
É engraçado como formamos uma imagem de uma pessoa que não conhecemos, e quando a vemos pela primeira vez, ela não corresponde à imagem que tínhamos dela. No entanto, quando Elisete Nolasco Vieira chegou no seu carro, ela tinha precisamente o aspecto que eu imaginei: alta, elegante e de uma extrema mas firme delicadeza. Era uma mulher de aspecto atraente e determinada, não aparentando nem pouco mais ou menos a idade que já tinha.
Ela saíu do carro e dirigiu-se logo a mim:
- Você é que é a Ema Reis?
- Sou, sim.
Ela estendeu-me a mão e eu apertei-a. Ela tinha os olhos do pai.
- Eu sou a Elisete. Só Elisete. Pode deixar o “dona” de lado.
Eu ri-me:
- Concerteza, Elisete.
Ela virou-se para a casa.
- Meu Deus. – desabafou ela – Há anos que não vinha aqui.
- A sua casa é lindíssima.
Ela inclinou a cabeça para mim, com um ar triste:
- A beleza de uma casa não vale de nada se não pudermos viver nela.
Olhei para ela:
- Tem toda a razão.
Ela não disse nada, por momentos. Depois perguntou:
- Você sabe do incêndio?
- Sim. Era mesmo sobre isso que eu lhe queria falar.
- Ah, sim? – estranhou ela – Já foi há mais de dez anos. É isso que está a tornar difícil a venda desta casa?
Hesitei em responder-lhe:
- Mais ou menos. Quanto mais eu souber sobre o que se passou na altura, mais preparada estarei eu para responder a eventuais perguntas de um potencial comprador.
Elisete não disse nada, assentindo simplesmente com a cabeça. Depois caminhou na direcção da casa, de chave na mão. Eu fui atrás dela. Ela olhou para mim, observando-me enquanto destrancava a fechadura:
- Você é nova na agência, não é?
Eu sorri-lhe:
- Sim, comecei a trabalhar agora. Esta é a minha primeira casa.
- Neste caso… – disse ela, rindo-se enquanto entrava na casa – Lamento imenso. Podia ter-lhe calhado uma casa mais fácil de vender.
- Não faz mal. Eu não tenho medo de desafios.
Ela olhou novamente para mim, admirada. Depois fechou a porta e pousou as suas coisas na mesinha que havia à entrada, pendurando também o casaco no bengaleiro. Eu olhei discretamente à volta, aproveitando Elisete estar de costas para mim enquanto abria as portas da marquise que davam para o terraço e para o jardim. Procurei o mínimo sinal da presença do velhote ou da confusão que ali se instalara no dia anterior. Não havia nem uma coisa, nem outra.
- Eu adoro esta casa. – murmurou a Elisete, dirigindo-se à magnífica sala de estar, comigo atrás – Quando fizémos a reconstrução, aproveitámos para renová-la completamente, até as fundações. Quando as obras acabaram, isto não era mais uma casa, era um palácio.
- Concordo absolutamente.
- Vivi aqui tantos anos… Desde que nasci, aliás. Os meus pais compraram esta casa pouco antes de eu nascer. Eles queriam ter mais filhos mas… A minha mãe morreu durante o meu parto.
- Ah, sim…? – disse eu, apanhada de surpresa – Lamento.
Ela sorriu:
- Não se preocupe. O meu pai tomou muito bem conta de mim, tão bem que nunca mais voltou a casar-se. Dizia que a minha mãe era o único amor da vida dele e que não queria ter mais ninguém depois dela.
- Isto é muito romântico.
- Sim, mas também é muito solitário.
Ela olhou em volta e sacudiu a cabeça, como se protestasse contra algo:
- Ele morreu aqui no incêndio, sabe? Sózinho.
Eu assenti com a cabeça:
- Sei. Lamento muito. É uma forma horrível de se morrer.
- Sim, não era nada o fim que o meu pai merecia.
Ela apontou para um dos sofás da sala:
- Foi naquele sofá que o encontraram. Quer dizer, não aquele sofá, claro, mas… Foi naquele sítio que encontraram os restos dele, completamente carbonizados.
- Não foi no quarto dele que o encontraram?
Elisete olhou para mim, espantada.
- Não, foi aqui na sala. – assegurou ela – Porquê?
- Por nada. Devo ter feito confusão. No processo da casa está uma descrição muito resumida do que se passou e eu assumi que o seu pai tivesse adormecido na cama dele.
Não me pareceu necessário dizer-lhe que tinha tido uma conversa com a vizinha dela. Pelo menos, por enquanto.
- Não, ele adormeceu no sofá da sala, – continuou ela, com tristeza – completamente zonzo dos medicamentos que tinha tomado para as dôres que tinha nas articulações. Ele sofria muito dos ossos e aquele dia em particular estava a ser bastante mau para ele. Ele estava sózinho, e tomou tantos analgésicos que ficou num estado de sonolência, e nem se apercebeu mais do que estava a fazer. Acabou por adormecer com um cigarro aceso nas mãos, ou na boca. Isso depois de ter comido algo que fez na cozinha, deixando um dos bicos de gás do fogão mal fechado.
Ela apontou para trás de mim. A cozinha era mesmo ali, ao lado da sala.
- O resultado foi um incêndio e uma explosão que destruíu esta casa e ainda fez vários danos na propriedade de vários vizinhos.
Ela suspirou fundo:
- Ainda tentámos fazer uma vida normal aqui depois dele ter morrido e de termos reconstruído a casa, mas havia aqui um ambiente de tristeza tão grande e tão opressivo que se tornou insuportável viver aqui. Os meus filhos, que adoravam o avô, já não aguentavam mais. Acordavam todas as noites a chorar…
A voz dela quebrou-se mas ela controlou-se bem:
- Tivémos que sair. Não podíamos ficar mais aqui. Ao fim de uns meses, mudámo-nos para Sintra.
- Que pena. – comentei eu.
- O meu marido adorava esta casa, tanto quanto eu. Ainda hoje, ele diz que as suas melhores memórias são daqui, desta casa. Até das discussões que ele às vezes tinha com o meu pai, ele tem saudades. Quando ele morreu, o meu marido Carlos chorou como se lhe tivesse morrido o seu próprio pai, e durante muito tempo, ele sentiu-se culpado pelo o que aconteceu aqui. E não só ele, eu também.
- Porquê? – perguntei eu, admirada.
- Tínhamos ído passar aquele fim-de-semana fora em Setúbal, em casa dos pais do Carlos. Se não tivéssemos saído, ele ainda hoje estaria vivo. Ou pelo menos, não teria morrido num incêndio horroroso.
- Ninguém imagina uma coisa dessas, não é, Elisete? Quer dizer, se fôssemos todos capazes de adivinhar o futuro, seríamos todos milionários, certo?
Ela riu-se.
- Certo.
Ela olhou em volta, de novo.
- Bem, agora que estou aqui, eu tenho que ver a casa toda. – disse ela, entusiasmada – Não venho aqui há eras.
Eu estendi as mãos à frente dela:
- A casa ainda é sua.
Explorámos outra vez – outra vez para mim – a casa toda, desde o andar térreo até ao sotão, o qual tinha sido transformado num grande escritório luxuoso. De divisão em divisão, ela falou durante o que me pareceu serem horas, dando-me detalhes sobre a casa e a sua história, descrevendo a aventura que foi reconstruí-la toda de novo, desde o telhado até às suas fundações.
Das janelas inclinadas do sotão tinha-se uma vista muito agradável para o jardim da casa e para os campos de cultivo que se estendiam até se perderem de vista. estava sol, mas parecia que a luz do sol não conseguia alcançar os campos, nem a casa. De braços cruzados, Elisete admirou a paisagem, encostada à janela:
- A ideia era o meu marido trabalhar aqui… – disse ela, com um ar sonhador – Ele passava muito tempo fora de casa, sempre a trabalhar, e quando fizémos a reconstrução da casa, aproveitámos para construir finalmente um escritório com condições para ele trabalhar, aqui no sotão, e ao mesmo tempo, estar mais tempo connosco…
Elisete abanou a cabeça:
- Que desilusão.
Eu sorri-lhe, compreensiva, olhando em volta. O escritório estava decorado como o resto da casa: com grande sumptuosidade. Tinha uma grande secretária feita em madeira maciça, uma cadeira de cabedal, tapetes persas, sofás, estantes cheias de livros, chão em madeira, e ainda uma gigantesca televisão de plasma. O meu antigo apartamento cabia ali.
Pouco depois, a Elisete saíu do escritório e eu fui atrás dela, preparando-me para fechar a porta atrás de mim. Quando ia a fechá-la, reparei, com um baque no coração, que o Abel estava ali, bem no meio do escritório, a olhar para mim com uma expressão desesperada.
O corpo do pobre velhote estava coberto de cicatrizes e queimaduras. Ele começou a andar na minha direcção e eu fechei imediatamente a porta, afastando-me logo dela. A Elisete encontrava-se já a descer as escadas. Felizmente, não olhara para trás, pois teria dado com uma cena insólita: eu, feita barata tonta, às voltas com uma porta.
Ouvi um barulho na porta. A chave estava na fechadura, do meu lado. A maçaneta começou lentamente a rodar e eu tranquei logo a fechadura, antes que o Abel conseguisse abrir a porta.
- Abel! – chamei eu, o mais alto que podia sem atrair a atenção da Elisete – Fique aí! Acalme-se! Você há-de falar com a sua filha, eu prometo! Mas agora não é nada boa altura!
Fiquei a olhar para a porta durante uma eternidade. Para meu alívio, ele largou a maçaneta. Fui logo a correr para as escadas, antes que a Elisete desse pela minha falta. Ela tinha continuado a descer as escadas até à cave.
A meio do caminho, ouvi um ruído vindo de lá de cima. Parei e olhei para cima. Voltei a escutar com atenção.
Passos.
O velho teimoso não se tinha deixado ficar sossegado no escritório.