Casas Assombradas, Lda.

As aventuras de uma agente imobiliária

Em casa

Casas Assombradas

Fotografia de Bruno Abreu
(www.olhares.com/Greenstar)

Atirei-me ao sofá e encostei a cabeça para trás, feliz por estar finalmente em casa. Percebi que o meu marido também estava, pelos sons que me chegaram aos ouvidos, vindos da cozinha.
- Alexandre? – chamei eu.
- Oi!
Olhei para o meu relógio.
- O que é que estás a fazer em casa tão cedo?
- Olá para ti também!

Soltei um suspiro, fechei os olhos e esfreguei a testa. Estava completamente de rastos. Quando voltei a abri-los, o homem da minha vida estava à minha frente, com duas canecas de chá nas mãos e um sorriso.

- Dia difícil? – perguntou ele.
- Não imaginas.
- Pelo aspecto do teu cabelo, parece que tiveste um encontro inesquecível com um furacão.
- Todos os encontros com furacões são inesquecíveis, meu amor. – disse-lhe eu, pegando numa das canecas que ele trazia.

Ele sentou-se ao meu lado, e beijou-me na testa, tentando ao mesmo tempo pôr alguma ordem no meu cabelo.

- Vais levar umas horas valentes a arranjar este cabelo. – gracejou ele, a sorrir.
- Levei a tarde inteira a arrumar uma sala que é maior que a nossa casa inteira. Ficou tudo de pantanas.
Suspirei alto:
- Só espero que aqueles vasos que se partiram não sejam da dinastia Ming, ou coisa que o valha.
- Qual é a história desta vez? – perguntou ele a rir-se.
Encostei-me a ele:
- Um velhote… Um incêndio… Ele quer ver os netos… Mas a casa já não é habitada há mais de dez anos.
- Fantástico! – disse ele, engolindo um pouco de chá – Ele tem muito mau aspecto?
- Se estiver calmo, não.
- Eles nunca são calmos, Ema.
Olhei para ele. Já não sorria.
- Não te preocupes, amor. Este é dos fáceis.
Ele não disse nada.

Nisso, as cortinas que cobriam as duas grandes portas de vidro da nossa sala, as quais davam para as traseiras da casa, ondularam e alguém entrou. Era o meu rapaz, vestido com as suas calças côr-de-laranja e camisa branca e amarela. Ele veio até mim:
- Olá, Gustavo.
- Olá, Ema. – respondeu ele, empurrando os óculos que lhe escorregavam pelo nariz abaixo.
- A ele dizes olá. – refilou o Alexandre, bebericando o seu chá.
Sorri para ele:
- Ele só tem onze anos.
Olhei outra vez para o miúdo. Tinha o cabelo louro todo arrebitado.
- Viste a minha mãe? – perguntou ele, com uma encantadora voz infantil.
Fiz que não com a cabeça.
- Ela ainda não está em casa. – disse ele, olhando para a porta de saída – Posso esperar por ela aqui?
- Claro, meu querido. – respondi-lhe eu, apontando-lhe o outro sofá – Senta-te aí.
Ele sentou-se no sofá, pondo-se logo a trocar canais com o comando.
- Detesto quando ele faz isto. – reclamou o Alexandre.
- Chiu… Deixa-o estar.

Observei silenciosamente o pequeno. Ele concentrava-se na televisão, muito entusiasmado, como se tivesse acabado de receber um presente.

- Tenho de voltar lá amanhã. – disse eu para o Alexandre.
- Claro que tens. – ripostou ele, irónico – Caramba, Ema… De todas as casas que há à venda neste país, a primeira tinha que te calhar ser logo uma assombrada.
- E queres ouvir a melhor?
- O quê?
- Foi uma partida. O meu próprio chefe é que me mandou para lá. A casa está tão afectada que sempre que entra lá alguém, algo acontece. Ele sabe disso e então manda para lá todos os novatos…
O Alexandre desatou a rir-se à gargalhada.
- Não tem graça nenhuma, Alexandre.
- Ai, isso é que tem!
Ele continuou a rir-se, sob o olhar confuso do Gustavo.
- Não ligues. – disse eu para o miúdo, levantando-me do sofá.

Fui até à minha mala e procurei o meu telemóvel. Consultei o processo da casa e liguei para um número que lá estava. Atendeu-me uma voz delicada:
- Está?
- Está sim, boa tarde. Eu estou a falar com a Dona Elisete Nolasco Vieira?
- É a própria.
- Como está? Daqui fala Ema Reis, da Hugo Hauser.

Houve uma pausa. Depois ela repetiu, hesitante:

- A agência?
- Sim. Peço desculpa, é má altura para lhe ligar? Eu posso ligar noutra hora.
- Não, não… Nada disso. É só que já há bastante tempo que não falava com vocês. O que é que aconteceu, conseguiram vender a minha casa?
- Infelizmente, ainda não. Era sobre isso mesmo que queria falar consigo, se fosse possível. Pode vir ter comigo amanhã? Podíamo-nos encontrar na Casa do Lumiar.
- Não podemos falar agora ao telemóvel?
- Espero que não se importe, mas eu preferia falar consigo em pessoa, se puder ser. – respondi eu, com serenidade – Mas se lhe fôr muito difícil, eu posso…
- Espere um momento, por favor.

Durante um minuto, não se ouviu nada no telemóvel. Ela tinha tapado o bocal. Depois, finalmente, lá voltei a ouvir a voz dela.

- Pode ser amanhã à tarde?

Setembro 23, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 6. Em casa, Episódio 1 | | Sem comentários ainda