Casas Assombradas, Lda.

As aventuras de uma agente imobiliária

O grande incêndio

Casas Assombradas

Fotografia de João Azevedo
(www.olhares.com/Jonas)

Parei o carro em frente à casa. Agora que eu sabia o que se passava lá dentro, eu via-a com outros olhos. Era uma casa parecida com todas as outras vivendas que havia ao longo daquela rua ajardinada, mas com um aspecto muito mais recente. Podia-se ler “A Casa do Lumiar” numa placa posta por cima da porta da entrada, embora aquela rua fosse nos arredores de Lumiar, e não na cidade propriamente dita.

Peguei na minha mala, num saco que tinha ido buscar a casa, na minha pasta, e saí do carro. No momento em que tranquei a viatura, vi uma senhora já de alguma idade a sair da casa do lado oposto da rua. Ela trazia um xaile e tentava aconchegar-se nele. Na altura estava uma tarde de Outono bastante fria.

- Boa tarde. – cumprimentou-me ela, quando se aproximou de mim.
- Boa tarde.
- Você é da agência, não é?
- Sou, sim. – confirmei eu, estendendo-lhe a mão – Chamo-me Ema Reis.

Ela apertou-me a mão:

- Como está? O meu nome é Marta Oliveira, moro mesmo aqui em frente. Vocês já estiveram cá hoje, não estiveram?
- Sim, vim cá outra vez para…
- Eu vi uma ambulância a levar uma moça daqui.

Hesitei por um momento, observando a senhora e tentando perceber o que ela queria.

- A minha colega teve uma má diposição e desmaiou. – expliquei eu – Bateu com a cabeça no chão e tive que chamar uma ambulância.
- Oh, meu Deus! – afligiu-se a senhora, apertando a mão contra o peito – Mas ela está bem?
- Tenho a certeza de que sim. Ainda não falei com ela, mas eu pedi aos pais dela para…
- Esta casa foi sempre um palco de desgraças. – desabafou ela, de repente.

Aí, calei-me. Olhei para ela com mais atenção. Devia ter uns sessenta e muitos anos. Cabelos pintados, vestida com roupa da melhor qualidade, baixinha, olhos cansados e cheios de rugas bem disfarçadas pela maquilhagem. Havia uma expressão de bondade na sua face.

- Como assim? – perguntei eu.
- Houve um incêndio e a casa ficou quase completamente destruída.
Fiquei logo alerta à menção de “incêndio“:
- Ah, sim?
- Sim. Desde então tem acontecido uma série de acidentes esquisitos…
- Esquisitos? – repeti eu, muito interessada.
- Sim. Havia um homem já velhote, mais velho do que eu. Ele era o dono da casa e vivia aqui desde que se tinha reformado. O senhor Abel, era como ele se chamava. Abel Nolasco.
- Abel Nolasco?
- Sim, e ele fumava muito. Fumava mesmo muito. Ele costumava dizer que se deixasse de fumar, morria. Ironia das ironias, um dia deixou-se adormecer na cama com um cigarro aceso nas mãos e ainda por cima, veja bem, o gás do fogão não estava bem fechado. Uma coisa juntou-se à outra e deu-se uma explosão que se ouviu no bairro inteiro. Partiu as janelas todas da minha casa. – acrescentou ela, apontando para a sua própria casa atrás dela – E das outras ao lado, claro.

Ela soltou um suspiro:

- Coitados. Eles ainda eram tão novinhos…
- Quem?
- Os netos! – exclamou ela, encolhendo os ombros, como se fosse óbvio – Os dois netos, o Pedro e o Ricardo. Já devem estar uns homens, agora… Nunca mais os vi, desde que se foram embora. Mas o que eles sofreram com a morte do avô…
Ela abanou a cabeça:
- Eles adoravam-no.
- O que é que quer dizer com eles terem ido embora? Eles viviam aqui?
- Sim, o Abel vivia aqui com a filha Elisete e o genro, que era o Carlos, e os dois filhos deles, mas eles estavam todos fora naquele fim-de-semana. Tinham ido almoçar à casa dos pais do Carlos, em Setúbal. O Abel só não foi porque não se sentia bem.
- Eu não me lembro de ler nada sobre um incêndio aqui no processo…

Procurei um papel na minha pasta e li o que estava lá escrito:

- A casa está em nome de Elisete Nolasco Vieira.
- Bem, a casa era do Abel. Quando ele morreu, a casa passou para o nome dela. Eles ficaram muito bem, sabe? A Elisete herdou muito dinheiro e várias propriedades do Abel. Na altura, o Carlos não estava muito bem de finanças e pareceu tudo uma coincidência muito cruel. Esteve aqui a polícia e tudo! O pobre Carlos ia sendo preso por suspeitarem de que ele é que tinha ateado o fogo.
- Pois, imagino.
- Mas foi a própria polícia que chegou à conclusão de que tinha sido um acidente.

Eu adoro pessoas como a Marta. Elas contam tudo o que precisamos de saber sem termos que perguntar quase nada.

- Os pequenos sofreram muito. – continuou ela – Levaram muito tempo para recuperar da morte do avô. Eu lembro-me tão claramente como se tivesse sido ontem.
Ela abanou a cabeça outra vez:
- Pobrezinhos! Ainda por cima tiveram que ficar numa casa que lhes era estranha, enquanto esta era reconstruída. As obras levaram meses. Quando voltaram, a casa era a mesma, mas ao mesmo tempo… Já não era mais a mesma, percebe?
- Como assim?
- Eles recuperaram a casa, como vê, e puseram-na tal e qual como ela estava, a mesma côr e tudo. Aproveitaram apenas para mudar a canalização e os cabos da electricidade, essas coisas. Mas quando eles voltaram para aqui…

E lá voltou ela a abanar a cabeça outra vez.

- Começaram a acontecer coisas estranhas. Molduras de fotografias que caíam sózinhas dos móveis e que se partiam. Livros que desapareciam das prateleiras, objectos que mudavam de sítio sem ninguém lhes ter tocado, principalmente no quarto que era do Abel. Havia gritos a meio da noite… Os miúdos acordavam a chorar. E de vez em quando, pairava no ar um cheiro a tabaco mas para além do Abel, ninguém fumava nesta casa.  – ela estremeceu – Era como se o Abel ainda estivesse vivo, sabe? Até me dá arrepios!

Apenas pude sorrir.

- Eles viveram aqui mais uns… Creio que uns quatro meses. Depois foram-se embora e nunca mais voltaram. Puseram a casa à venda há coisa de dez anos mas até agora, ainda não a conseguiram vender. É que toda a vez que alguém entra nesta casa, alguma coisa má acontece. Quando vocês apareceram aqui esta tarde, esta casa já não recebia visitas há pelo menos um ano. E de repente, vejo aqui uma ambulância? Meu Deus, eu nem sequer me atrevo a entrar lá dentro!
- Pois… – disse eu – Mas eu terei que entrar. Tenho de vender esta casa.
- Não quero desanimá-la, mas eu acho que não vai conseguir.

Sorri novamente:

- Veremos. – estendi-lhe a mão outra vez – Muito obrigada pelo seu tempo, Marta. Deu-me algumas informações valiosas.
- Valiosas? – estranhou ela, apertando-me a mão e rindo-se.
- Sim, valiosas. Muito obrigada. Tenha o resto de uma boa tarde.
- Igualmente.

E dirigi-me para a casa, sentindo os olhos da Marta pregados nas minhas costas.

Julho 13, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 4. O grande incêndio, Episódio 1 | | Sem comentários ainda