Casas Assombradas, Lda.

As aventuras de uma agente imobiliária

A Casa do Lumiar

Casas Assombradas

Fotografia de Marc Dargent
(www.olhares.com/baphil)

Eu só comecei a envolver-me com casas assombradas quando me tornei numa agente imobiliária. Antes de vir para a Hugo Hauser, eu era uma assistente administrativa que tinha trabalhado durante anos em várias empresas diferentes, até ter arranjado um posto como secretária na agência, onde ainda fiquei durante um ano antes de me ter resolvido a mudar de ramo e passar a vender casas também.

Como este negócio era novo para mim, os meus prezados colegas resolveram pregar-me uma partida, a mim e a uma outra jovem moça que dava também os seus primeiros passos nesta profissão. De todos eles, o mais entusiasmado era o meu chefe, que nos assignou a venda de uma casa que todos na agência sabiam estar assombrada, algures no Lumiar.

As casas assombradas valem muito menos no mercado do que as casas “normais”. Todos os clientes afirmam não acreditar em fantasmas, mas a verdade é que ninguém quer comprar uma casa suspeita de ser habitada por presenças do Além. Nós não fazíamos a menor ideia de que a Casa do Lumiar estava à venda há anos, e que era famosa na Hugo Hauser pela existência de actividades paranormais.

Como é óbvio, ninguém na agência sabia do meu “talento especial”. A capacidade de ver e falar com fantasmas não é coisa que eu ponha no meu currículo.

Fomos então a Lumiar. Queríamos ver primeiro a casa antes de a vender. Assim que chegámos, explorámos a casa de alto a baixo. Vimos todas as divisões. A casa inteira estava decorada com um luxo inesperado: mobília de madeira maciça, candeeiros enormes, sofás em cabedal, tapetes persas, quadros lindíssimos nas paredes… Não havia razão para aquela casa não ter sido vendida há mais tempo, e estávamos precisamente a comentar isso quando, de volta à sala principal da casa, encontrámos um homem já velhote estacado bem no meio dos sofás.

- Quem é o senhor? – perguntei-lhe eu, espantada.

Depois olhei para todos os lados:

- E como é que entrou aqui?

O velhote olhou para nós, abrindo muito os olhos de surpresa. Não disse nem uma palavra. Em vez disso, ele levantou os braços e começou a deslizar na nossa direcção. O seu aspecto mudou de repente para uma coisa escanzelada e feia, cheia de cicatrizes e o que me pareceu ser queimaduras por todo o corpo. Quando estava prestes a alcançar-nos, ele abriu a boca e um grito hediondo encheu a casa, fazendo tremer as paredes.

Assustei-me a valer, mas a minha colega desmaiou, batendo com a cabeça no chão. Quando voltei a olhar para o velhote, este tinha desaparecido.

- Mas que raio é que se passa aqui?! – perguntei eu em voz alta, ainda a tremer.

Levei alguns minutos a recuperar a calma, olhando em todas as direcções. Quando parei de tremer, tentei acordar a minha colega, dando umas palmadinhas suaves na cara dela:

- Joana… – chamei-a eu – Acorda, rapariga, vá…

Ela abriu os olhos, devagarinho, e levou logo uma mão à cabeça. Gemeu baixinho, sem despertar completamente. Ajudei-a a levantar-se e a sentar-se no sofá.

- O que é que se passou? – perguntou ela, com a voz fraca – Tenho a acabeça… Parece que levei com um camião em cima.
- Não foi nenhum camião.

Ela olhou para mim com um ar estranho.

- Tu sentiste-te mal de repente e desmaiaste. – apressei-me eu a explicar – Deixa-te estar aí quietinha, que eu vou chamar uma ambulância.
- Uma ambulância…? Mas é preciso…?
- Sim, é preciso. Não gostei do som que a tua cabeça fez quando bateste com ela no chão.

Liguei o número das emergências no meu telemóvel. Ela levou a mão até à cabeça outra vez e olhou em volta, confusa:

- Não estava aqui um velhote?
- Qual velhote? – respondi eu, logo de imediato – Não esteve cá nenhum velhote! Deixa-te estar aí quieta.

Enquanto esperava que a ambulância chegasse, fui à procura do velhote em todas as divisões da casa, mas ele não voltou a aparecer. Pensei na expressão de sofrimento que ele tinha quando soltou aquele grito horrível e senti arrepios a correrem-me pela espinha baixo outra vez. Mas havia uma súplica infinita nos seus olhos. Aquele homem não estava a tentar assustar-nos. Estava a tentar comunicar connosco.

Liguei para a agência. Atendeu-me a secretária do meu chefe, cuja voz de fumadora revelava os seus mais de cinquenta anos de idade:
- Hugo Hauser, Lda., boa tarde, fala a Graça Meyer.
- Olá, Graça. – cumprimentei-a eu – O Paulo está?
- Agora de momento não, querida.
Ia começar a explicar a ela o que se tinha passado, quando ouvi alguém a falar por trás dela:
- Então, elas já viram algum fantasma?
Uma gargalhada geral invadiu-me os ouvidos.
- Calem-se! – refilou a Graça, sem tapar bem o bocal do telefone – Continua, Ema.

Desliguei o telemóvel. Senti-me estúpida e zangada ao mesmo tempo. Olhei para a Joana, semi-desmaiada no sofá. No que concerne a fantasmas, há três tipos de pessoas neste mundo: as que acreditam em fantasmas, as que não acreditam em fantasmas, e as “outras”. De todas elas, as “outras” são as mais perigosas. Não acreditam nem deixam de acreditar, e lidam com esses fenómenos como crianças a brincar com fósforos.

Quando a ambulância veio, eu expliquei-lhes que a moça se tinha sentido mal e que tinha caído redonda no meio do chão, batendo com a cabeça com muita força. Do telemóvel dela, descobri o contacto dos pais dela e informei-os de que tinham a filha no hospital. Depois disso, fui directa para a agência.

Junho 18, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 2. A Casa do Lumiar, Episódio 1 | | 4 Comentários