Abel
Fotografia de Jorge Filipe Pires
(www.olhares.com/jorgefpires)
Como expliquei antes, a fronteira entre a Vida e o Além é um limbo sem fim. Portanto, se eu quiser encontrar alguém que ande por lá perdido, uma boa forma de o fazer é através de som. O som, em determinadas frequências audíveis apenas por animais, faz vibrar o ar em ondas que alteram as barreiras entre o mundo deles e o nosso, de forma a guiar o espírito que tento atrair em direcção a mim.
Estas almas errantes têm, na verdade, a capacidade de ultrapassar a fronteira sempre que quiserem, mas nem sempre se dão conta de que o fazem. O Abel ainda não se tinha apercebido bem do que lhe tinha sucedido, e andava para cá e para lá sem fazer a menor ideia de que pelo caminho, assustava as pessoas de morte. Para quem não os consegue ver é como se não existissem, mas é sempre possível sentir, de alguma forma, a sua presença. No caso do Abel, a força da sua presença era tremenda.
Agora precisava o chamar para cá, e não fazia a menor ideia de onde é que ele se encontrava. É mais fácil encontrar uma estrela perdida no Universo do que uma alma perdida no Limbo. Para além do som, eu ia precisar de um bocadinho de luz do sol.
Do meu saco tirei um candeeiro de ferro forjado e coloquei-o em cima de um móvel encostado a uma das janelas enormes que davam para um terraço nas traseiras da casa. Dali dava para ver o sol a preparar-se para se pôr no horizonte, e a luz batia em cheio naquela janela, inundando a sala com uma cor quente. A seguir, coloquei no candeeiro vários jarrinhos de cristal com um formato especial.
Na parede ao lado do móvel estava muito convenientemente instalado, um espelho gigantesco. Espelhos são belíssimos portais de entrada para o nosso mundo. Por vezes, elas saiem por ali, estas almas perdidas. Olhei em volta. Havia muitos espelhos naquela casa.
- Não me admira que o velhote venha cá tantas vezes.
Fui até ao andar de cima.
Voltei a espreitar os quartos todos que havia. Havia o quarto principal, uma suite de casal, decorado com todo o luxo. Havia outros dois quartos, que percebi serem dos rapazes. Espreitei ainda mais três quartos que pela decoração, pareciam ser de visitas. O quarto do velhote era um daqueles. Estando os três decorados de maneira muito semelhante, era difícil adivinhar qual deles seria o do velhote. Tinham sido todos remodelados depois do incêndio e notava-se bem que tinham tido muito pouco uso desde então.
E agora? O sol estava prestes a pôr-se, eu não tinha muito tempo. Tornei a espreitar os três quartos de visitas, tentando desta vez observá-los com mais atenção. E então vi. Num dos quartos, estava um livro em cima da cama. Um livro que não estava ali antes. Entrei no quarto e peguei nele. Tinha o aspecto de ter sido folheado muitas vezes.
- Hum… – murmurei eu, baixinho – Quem havia de dizer?
Era uma colecção de poemas de vários autores, e havia uma página que ele tinha marcado. Era o poema de Tinúviel, escrito pelo J.R.Tolkien. Reconheci-o logo, por causa do miúdo que vai lá à minha casa. O pequeno gosta muito do Senhor dos Anéis e lê-o muitas vezes, com uma paixão fora do vulgar. Seja como fôr, o velhote devia gostar imenso daquele poema. Imaginei que talvez lhe lembrasse a mulher, e por isso, lia-o com frequência.
Levei o livro para baixo, passando pela cozinha. Enchi um jarro com água e fui até à sala, em direcção ao candeeiro. A água é uma coisa fantástica. Reflecte a luz de uma forma extraordinária, iluminando os cantos mais obcuros de onde quer que estejamos.
- Tu és a Rainha da Terra, Fonte da Vida. – murmurei eu, enquanto enchia cuidadosamente os doze jarritos do candeeiro, um a um – Sem ti, não somos nada e contigo, somos tudo.
A luz do sol ligou-se imediatamente à água e a sala ganhou logo uma luminosidade etérea. Liguei o meu PDA à aparelhagem que estava coberta de pó, mas que funcionava na perfeição. Procurei a música que tinha em mente.
- Eu sei qual a música perfeita para ti, velhote. – disse eu, seleccionando uma música de que eu própria gostava bastante – Vamos resolver o teu problema num instante.
Sentei-me no sofá, enquanto os delicados sons de uma flauta-de-pan enchiam suavemente o ar, disfarçando os ultrasons que o PDA lançava. Ouvi logo os cães da vizinhança começarem a ladrar. Era uma melodia doce, acompanhada por alguns toques de piano e pelo som grave de um baixo. Uma combinação fantástica, na opinião dessa vossa amiga. Comecei a ler o poema devagar, em voz alta:
The leaves were long, the grass was green,
The hemlock-umbels tall and fair,
And in the glade a light was seen
Of stars in shadow shimering.
Tinúviel was dancing there
To the music of a pipe unseen…
Continuei a ler durante vários minutos, até ver finalmente um movimento pelo canto do olho. Olhei para a luz reflectida no espelho pelo candeeiro de água. Abriu-se ali um portal, lentamente, como tinta lançada na água, mas em pleno ar. Algures, um cão ganiu e calou-se. Pouco a pouco, os outros cães calaram-se todos.
Uma forma humana apareceu e atravessou o portal, caminhando vagarosamente em direcção à aparelhagem. Ali estava ele, o velho Abel. Tinha lágrimas a correr-lhe pelo rosto vincado de rugas, enquanto ouvia a melodia. Os espíritos são afectados mais profundamente pela música do que nós, os vivos.
Ele recitou o resto do poema comigo, o que ainda levou outros tantos minutos. Eu lia do livro, ele recitava o poema inteiro de memória. Parecia o meu miúdo. Quando acabámos, pousei o livro no sofá e levantei-me, aproximando-me com toda a calma do homem.
- Eu consigo ouvi-lo. – disse-lhe eu, olhando-o nos olhos – E vê-lo.
Ele virou-se para mim, estupefacto.
- Consegue ver-me? – perguntou ele, de olhos muito abertos.
Ele tinha uns olhos incrivelmente azuis.
- Sim. O meu nome é Ema. Ema Reis. E sou sua amiga.
Ele sorriu:
- Consegue ver-me! – começou a rir-se, todo feliz e entusiasmado como uma criança – Consegue ver-me! Consegue ver-me…
Ele parou de se rir e apontou para as escadas que davam para o andar de cima, com uma expressão ansiosa no olhar.
- Houve um incêndio… E… E…
Ele começou a tremer, com a frustração própria dos velhos que queriam expressar-se rapidamente mas que não o conseguiam devido à idade avançada. Aquilo comoveu-me imenso e eu agarrei-lhe a mão:
- Eu sei.
Ele olhou para mim, surpreso. Há anos que ninguém lhe tocava e a mão dele estava gelada. O calor é algo que só existe no nosso mundo. O Limbo é um mundo árido, escarpado, escuro e frio.
- Eu estou aqui, Abel. Estou aqui consigo e vou ficar aqui até você me dizer o que tem andando a tentar dizer à sua família durante esses anos todos.
Ele fitou-me, mais estupefacto ainda.
- Tenho todo o tempo do mundo. – prometi-lhe eu, confiante.
As lágrimas voltaram a invadir o azul imenso dos seus olhos:
- Eu tentei… Tentei dizer-lhes, mas eles não me ouviam. E depois, desapareceram.
- E sempre que eles voltavam, o Abel tentava com mais força ainda, não era? Porque quando vinham, era sempre por pouco tempo.
- Sim! Sim!
“Infelizmente, isto assustou-os ainda mais” , pensei eu.
- Lá em cima… – disse ele – Eu estava a dormir e… e… Senti calor nas pernas… Mas eu estava muito tonto, e tentei levantar-me… Mas caí! E doía tanto! Doía tanto…
O corpo dele começou a sofrer uma transformação estranha. As mãos dele e as pernas pegaram fogo e começaram a ficar encarquilhadas, a queimarem-se como papel. Na cara, as cicatrizes voltaram a aparecer.
- Abel… – chamei-o eu – Abel!
Ele acordou de repente, abrindo muito os olhos e fixando-os em mim. As cicatrizes e as labaredas desapareceram.
- Abel, você adormeceu com um cigarro nas mãos, ou na boca, no seu quarto?
- Não!
Os olhos dele voltaram a inundar-se com lágrimas:
- Não sei… Eu não sei!
“Pronto.”, pensei eu, “Temos um problema.”
- Eu fumava muito mas não estava a fumar no meu quarto. Eu nem sei porque é que eu estava no meu quarto. Não sei como é que o fogo começou. Eu estava tão tonto… Era como se tivesse tomado os meus medicamentos… Mas eu não tomei nada! Só os tomo à noite!
“Então, ou a polícia se enganou, ou alguém mentiu.”
- É isso que eu tenho tentado dizer aos meus netos, e à minha filha. Enquanto não disser, não posso partir em paz.
Ele olhou para a aparelhagem. A melodia enchia o ar de sons doces, o que parecia tranquilizá-lo.
- Não fui eu que comecei o incêndio. – ele caminhou em direcção à aparelhagem – Não fui eu que destruí a casa.
Ele pôs a mão em cima da aparelhagem, e uma expressão de tristeza invadiu-lhe o olhar:
- Mas eles agora não estão aqui. Desapareceram para sempre… – ele olhou para mim – …e esta casa nunca mais voltará a ser o que era.
Nisso, uma sombra encheu rapidamente a sala de estar e um tornado violento formou-se precisamente no lugar do portal por onde o velhote tinha surgido, quando saíra do Limbo. Agarrei-me a um sofá. A luz do dia desapareceu por completo e o Abel foi sugado pelo tornado, desaparecendo pelo vórtice adentro, em direcção ao espelho. A bela melodia alterou-se, transformando-se numa cacofonia de sons horríveis, que se misturaram com a ventania. O tornado atirou tudo quanto se encontrava naquela sala para o ar, partindo uma série de coisas pelo caminho e quando acabou de engolir o Abel, desfez-se tão abruptamente como se tinha formado. A luz do sol regressou à sala e o vento parou de soprar à minha volta. Aos meus pés, caíu o livro do Abel.
Olhei em volta, sentindo os meus cabelos a voltarem gradualmente para o seu lugar. A sala estava a maior confusão.
- Lindo. – resmunguei eu.
Ainda sem comentários.
