Casas Assombradas, Lda.

As aventuras de uma agente imobiliária

Hugo Hauser, Lda.

Casas Assombradas

Fotografia de Paulo Medeiros
(www.olhares.com/paulomed)

Quando cheguei à agência, fui direita ao gabinete do meu chefe, passando tão depressa que fiz várias folhas de papel voarem da secretária da Graça. Esta agarrou as folhas como pôde, completamente apanhada de surpresa. Encontrei o meu chefe sentado à secretária:

- Olá, Paulo. – cumprimentei-o eu, friamente.

Ele olhou para mim, recostando-se na cadeira com um ar divertido:
- Ema! Então, encontraste a Casa do Lumiar?
- Humhum! – depois acrescentei, num tom irónico – E encontrei o velhote também.

Ele fez-se desentendido:
- Qual velhote?
Pousei as mãos na secretária, falando com firmeza:
- O velhote todo queimado, que vive lá. Só que não vive.

Ele não se aguentou mais e rebentou de riso, batendo com as mãos na secretária com quantas forças tinha, como um doido. Fora do gabinete, todos os outros desataram a rir-se também.

- Não tem graça nenhuma, Paulo. A Joana desmaiou de susto.
Ele riu-se ainda mais:
- Ema, nós fazemos sempre isso aos novatos! A Casa do Lumiar é como um teste, percebes? Quem conseguir sair de lá pelo seu próprio pé…
E soltou outra barrigada de riso, batendo na secretária. Eu fiquei simplesmente a olhar para ele, incrédula.
- Não fiques tão zangada, Ema! Foi só uma partida!
Cruzei os meus braços, indignada:
- A Joana está no hospital.

Ele parou finalmente de rir e ficou a olhar para mim de boca aberta, estupefacto. Fora do gabinete, o silêncio caíu como uma pedra.

- No hospital?! – gritou ele.
- Sim, no hospital. Tive que chamar a ambulância. Quando ela desmaiou, bateu com a cabeça no chão de tal forma que vou ficar muito espantada se não lhe descobrirem um traumatismo craniano.

Ele não conseguiu proferir um som. Preparei-me para sair do gabinete.

- Onde é que vais? – tartamudeou ele.
- Vou até à Casa do Lumiar.
De repente, ele saltou da cadeira, como se tivesse levado um choque:
- Hã?! Não!

Virei-me para ele, surpreendida.

- Não é preciso! – continuou ele, dando a volta à secretária – Eu dou-te outra casa!
- Eu não quero outra casa. Quero esta.
- Mas esta casa está à venda há anos, Ema! Ninguém a consegue vender!
- Eu quero ir lá à mesma.

Ele fitou-me, embasbacado:
- Mas porquê?! Quero dizer…
- A casa ainda está à venda ou não? – perguntei eu.
- Está.
- E quem ficou de a vender, a Hugo Hauser, certo?
- Certo. – respondeu ele, cuidadosamente.
- E a quem é que atribuíste a venda desta casa?
Ele olhou-me com mais desconfiança ainda:
- A ti.

Sorri-lhe:
- Isso mesmo.

E saí do gabinete, observando com satisfação o olhar atordoado de todos os meus colegas enquanto passava por eles em direcção à saída.

Junho 29, 2008 - Publicado por C.A.Margonper | 3. Hugo Hauser, Lda., Episódio 1 | | Sem comentários ainda

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