Casas Assombradas, Lda.

As aventuras de uma agente imobiliária

O Jardim

Casas Assombradas

Photo by Suzano Magalhães
(www.olhares.com/suzano)

Deu-me vontade de chorar. Queria muito ajudar Abel. Mas o que é que eu podia fazer naquele momento? Tinha que esperar pela altura certa para fazer as coisas. Fechei a porta e tranquei-a, dirigindo-me depois para o jardim.

Era um jardim lindíssimo e bastante grande. Tinha árvores, arbustos, canteiros cheios de flores, mas há muito tempo que ninguém ia lá. As flores mal se viam no meio das ervas daninhas. O relvado tinha atingido uma altura tal que nem dava para andar em cima sem tropeçar. O céu estava limpo, não se via nem uma núvem, mas a luz do sol parecia ter dificuldade em chegar àquele lugar. Era como se um véu invisível cobrisse toda aquela área, dando-lhe um ar sombrio, onde apenas alguns raios dourados conseguiam iluminar certos e determinados cantos.

Pus-me ao lado da Elisete:

- Temos de mandar arranjar este jardim. – sugeri eu – Sempre dá uma melhor impressão ao cliente.
- Tem razão. – concordou Elisete – Eu vou contratar um jardineiro para vir cá amanhã.
Apontei para a extensão verde à nossa frente:
- Tenho que dizer que este jardim é realmente… qualquer coisa de extraordinário.
- As folhas estão agora a começar a mudar para as cores do Outono. – observou Elisete, olhando para as árvores – Este é um lugar muito agradável nesta altura do ano. O meu pai adorava vir aqui. Ele costumava pendurar uma rede entre aquelas duas árvores ali, quando estava bom tempo.
Ela apontou para duas árvores no fundo do jardim e sorriu:
- Ele passava tardes inteiras ali, a ler livros e a recitar poesia.

Elisete cruzou os braços, continuando a sorrir sonhadoramente:

- Ele era um homem extraordinário.
- Acredito. – disse eu, olhando discretamente para a porta da cave atrás de nós.
- Espalhámos as cinzas dele pelo jardim, sabe?
Desviei o olhar para ela, surpresa:
- Ah, sim?
- Sim. Assim, ele estará sempre connosco. Ou pelo menos, foi o que pensei na altura.

“Isto explica muita coisa.”

- Isto é muito poético. – disse eu.
- Também achei que sim.
Tornei a olhar disfarçadamente para a porta da cave:
- Er… Elisete?
- Sim?
- Por acaso tem consigo o comando para abrir o portão da garagem?

Elisete fez que sim com a cabeça:

- Sim, nós temos dois comandos. Estão dentro de casa. Posso mostrar-lhe onde estão guardados.
- Isso seria óptimo! Um portão de garagem que se abra com um comando à distância causa sempre boa impressão aos clientes.
- Pois… – disse ela, sorrindo com estranheza – Acredito que sim.

Voltámos à casa, entrando pelas portas envidraçadas do terraço, onde aproveitei para lhe falar dos vasos Ming que se tinham partido no tornado da véspera, e que eu tinha esperanças de que não fossem vasos Ming. Claro que não fiz qualquer referência a tornados. Eu apenas mencionei “ventos fortes”.

- Isto está sempre a acontecer. – disse Elisete – Estas janelas volta e meia abrem-se de repente, com o vento. Não sei porquê. Isto não acontecia antes do incêndio.

“Pois, imagino que não.”

- A sério?
- Sim… Mas não diga isso aos clientes. – pediu ela, com um sorriso embaraçado.
- Claro que não.
- E não se preocupe com os vasos. Não eram nada de especial.
Elisete dirigiu-se a uma cómoda e abriu uma gaveta:
- Os comandos estão aqui.- disse ela, estremecendo um pouco de frio – Eu tenho de ir buscar o casaco.
- Está bem.

Ela foi até ao bengaleiro, vestiu o casaco e voltou para o pé de mim, cruzando os braços e aconchegando-se no casaco.

- Está a ficar mais fresco. – comentou ela.
Eu não tinha dado por isso mas estava realmente a ficar mais frio. Olhei para o meu relógio. Nem sequer eram três horas da tarde. E ainda sentia os pés gelados. Quando voltei a olhar para a Elisete, ela tinha fixados os olhos num dos sofás da sala.
- Foi precisamente naquele sofá que o meu pai morreu. Quer dizer, não aquele sofá, claro, mas… Foi naquele sítio que encontraram os restos dele. Carbonizados.
- Não foi no quarto dele que o encontraram?
Elisete olhou para mim, espantada.
- Não, foi aqui na sala. – assegurou ela – Porquê?
- Por nada. Assumi que o seu pai tivesse adormecido na cama dele.

Não me pareceu necessário dizer-lhe que tinha tido uma conversa com a vizinha dela. Pelo menos, por enquanto. Ela fez que não com a cabeça, esfregando os braços e encolhendo-se ainda mais no seu casaco:

- O meu pai estava doente naquela manhã. Doíam-lhe as articulações todas. Era suposto irmos todos a Setúbal passarmos o fim-de-semana, mas ele não se sentia com disposição de sair de casa. E então, deixámo-lo ficar aqui.
Ela virou-se para as janelas, e os seus olhos fixaram-se no jardim lá fora:
- Assim que chegámos a Setúbal, o Carlos recebeu um telefonema da empresa dele. Era um problema qualquer. Grave. Ele teve de pegar no carro e voltar para Lisboa… Quer dizer, para Sintra. A empresa dele é na área de Sintra. De qualquer maneira, daí a algumas horas, ele telefonou-me daqui de casa, a dizer-me que tinha resolvido o problema mais depressa do que previsto e que tinha passado por aqui, só para ver se o meu pai estava bem. Eu ainda falei com o meu pai ao telefone…

Elisete olhou para o chão. Eu percebi que ela tinha lágrimas nos olhos mas a voz dela estava firme:

- E insisti, insisti, insisti para ele vir com o Carlos para Setúbal. Os pais do Carlos vivem num apartamento muito confortável, e tinham um quarto extra para ele passar o fim-de-semana. Insisti tanto… Mas ele não quis vir. Não estava nada bem-disposto nem com vontade de se meter no carro e vir para baixo. Quando ele se despediu, disse-me para tentarmos todos descansar e divertirmo-nos. Sugeriu darmos um passeio de barco pelo Sado com as crianças, para ir ver os golfinhos. Garantiu-me que se encontrava bem o suficiente para estar sózinho, mandou-me beijinhos, e… Foi a última vez que falei com ele.

Ela olhou para mim:

- Horas depois, recebíamos um telefonema da Marta, a dizer que a casa tinha explodido.
- Marta?
- Marta Oliveira, a vizinha da frente. Ela ligou-nos primeiro que a polícia.
- A polícia?
- Sim, a polícia é chamada sempre que há fogo numa casa ou numa loja… Mas o que se passou foi simples de perceber. Por causa das dôres, o meu pai tomou tantos analgésicos que ficou num estado de sonolência, em que nem sequer se apercebeu do que estava a fazer. Ele adormeceu no sofá da sala, completamente zonzo, com um cigarro aceso nas mãos. Isso depois de ter comido algo que fez na cozinha, deixando um dos bicos de gás do fogão mal fechado. O resultado foi um incêndio e uma explosão que destruíu esta casa e ainda fez vários danos na propriedade de vários vizinhos.
Elisete fez uma pausa e depois continuou:
- No início suspeitaram de fogo posto, porque o Carlos tinha estado aqui naquela mesma tarde.

Ela abanou a cabeça:

- Não foi o melhor dia da vida do meu marido. Primeiro, o problema que teve de resolver na empresa, fazendo-o conduzir horas e horas de um lado para o outro, depois de ter viajado até Setúbal. Depois ainda teve a energia e a paciência para aturar o meu pai, passando por aqui para ver se ele estava bem. No final do dia, ele veio novamente até Setúbal, só para ser levado de novo para Lisboa logo de seguida, algemado pela polícia.
- A polícia não leva ninguém preso assim sem mais nem quê.
- As dívidas que o Carlos tinha contraído para a empresa dele eram bastante grandes, e ele não estava a conseguir pagá-las. – confidenciou-me ela – A morte do meu pai beneficiou-me muito, eu herdei tudo o que era dele. Sendo a mulher do Carlos, era óbvio que eu ia pagar as dívidas dele. A polícia pensou que isto era um bom motivo para ele matar o sogro, o que não deixa de ter a sua lógica, não fosse o facto de ser um completo absurdo.
- Até espanta que não tenham suspeitado de si, se não se importa que eu o diga.
- Não, não, eles também fizeram-me uma quantidade de perguntas… Mas a polícia concentrou-se logo no meu marido, porque ele é que tinha estado aqui.
- Motivo e oportunidade.
- Precisamente.

Pensei um pouco naquilo.

- Quando a Elisete diz “polícia“, refere-se à esquadra daqui?
- Refiro-me à Polícia Judiciária.
- Então, se eu… – hesitei, sabendo o que queria perguntar mas não sabendo bem como iria ela reagir.
- Sim?
- Se eu fôr depois à Polícia Judiciária indagar… Você importa-se?
Ela encolheu os ombros:
- Não. Porque é que havia de me importar? Mas não percebo o que é que você vai lá fazer. Isto vai ajudar você vender a casa mais depressa?
- Muito provavelmente.

Não era mentira nenhuma. Saber exactamente o que se tinha passado naquela casa era vital para descobrir como ajudar o Abel partir em paz. Estando a casa livre de fenómenos paranormais, já poderia levar para lá potenciais compradores sem correr o risco de ter subitamente coisas estranhas e inexplicáveis passarem-se mesmo em frente aos seus olhos. Poder mostrar casas sem ter que chamar ambulâncias no processo era muito importante para o início da minha nova carreira.

- Procure então por um homem chamado João Nobre. – disse-me Elisete – Ele é que foi o investigador encarregado de investigar o incêndio na altura.
Tirei um bloco de notas da minha mala e tomei nota daquele nome.
- Não sei se ele vai falar consigo, mas se fôr preciso, eu falo com ele e peço-lhe para ligar para si.
- Muito obrigada, Elisete.
- De nada.
- Pergunte-lhe se ela chegou a levar os miúdos a ver os golfinhos.

O meu coração deu um salto. Eu olhei para a Elisete. Ela não tinha ouvido nada.

- Pergunte-lhe.

Muito lentamente, eu virei-me para trás. Ali estava o Abel, com um aspecto normal, caminhando para mim. A Elisete não o conseguia ver mas conseguia obviamente sentir a sua presença. A temperatura mais baixa era um sinal. Pelo menos, o velhote estava mais calmo. Ele passou por mim e continuou a caminhar em direcção à sua filha.

- Elisete, posso perguntar-lhe mais uma coisa, só a título de curiosidade?
Ela olhou para mim:
- O quê?
O Abel estava mesmo ao lado dela.
- Chegou a levar as crianças a ver os golfinhos?
- Sim, por acaso, cheguei. Não naquele fim-de-semana, como deve calcular, mas uns dias mais tarde, logo que o meu marido ficou livre das acusações idiotas que a polícia lhe fez. As crianças precisavam de espairecer um pouco. Eles sentiam imenso a falta do avô. Nesta altura, estávamos a viver numa casa temporária, e a preparar a reconstrução desta. Eles adoravam o meu pai, e eu é que insisti em irmos até ao Sado, porque era o que o avô tinha desejado. Lembro-me de que foi um dia muito feliz, especialmente para o meu filho mais novo.
- Já devem estar grandes, não?
Ela riu-se:
- Já são adultos. O mais velho está na faculdade de medicina, e o mais novo entrou agora na Força Aérea.
- Era o que ele queria! – as gargalhadas felizes do Abel soaram cristalinas – Ele queria ser piloto quando fosse crescido!
- Ena! – soltei eu.
- O mais velho por acaso queria ser o Batman.
- Bom, vamos sair. – pediu Elisete – Está a ficar muito frio, e ainda tenho compromissos a cumprir esta tarde.
- Concerteza.

Ela dirigiu-se à porta de saída, olhando mais uma vez em volta. O Abel estava mesmo à frente dela, com um sorriso feliz. Saímos e ela trancou a porta. Estava mais calor cá fora mas ela não pareceu dar por isso.

- Bom, foi um prazer conhecê-la. – disse ela, estendendo-me a mão – A menos que tenha mais alguma questão em relação à casa que queira ver esclarecida.
Eu apertei-lhe a mão:
- Não, neste momento não tenho mais nada a perguntar-lhe. Muito obrigada por ter vindo.
- De nada. Você tem o meu contacto, não tem?
- Sim… Deixe-me dar-lhe o meu cartão.

Tirei um cartão de visitas da minha mala e entreguei-lhe.

- Muito bem. – disse Elisete – Até a próxima, então. Espero que venda a casa muito em breve.
- Eu também.

Despedimo-nos e quando eu ia para o meu carro, vi ela a dirigir-se à casa de Marta Oliveira. Dei uma olhada à Casa do Lumiar, enquanto entrava no meu carro. Vi o Abel num das janelas, semi-escondido entre os cortinados, observando a filha dele com um sorriso feliz nos lábios.

Observei a Elisete tocar a campainha. A porta abriu-se e a velha Marta olhou para Elisete, primeiro com estranheza, depois com um brilho no olhar, assim que a reconheceu. As duas mulheres abraçaram-se e riram-se, especialmente Marta, que começou logo a tagarelar e a gesticular sem parar. Eu conseguia ouvir a voz dela dentro do carro. Até que de repente, ela calou-se, de olhar fixo na Casa do Lumiar. Segui o olhar dela.

A Marta estava a olhar para a janela onde o Abel tinha estado. Mas ele tinha desaparecido, deixando as cortinas a ondular atrás de si. Quando voltei a olhar para as duas mulheres, Elisete tentava perceber o que se passava com a Marta, que estava agora pálida, como se tivesse visto um… fantasma. Elisete seguiu também o seu olhar mas não viu nada de anormal.

E depois elas olharam para mim. Liguei logo o carro e fui-me embora. Precisava de fazer um pouco de investigação e não tinha tempo a perder.

Abril 13, 2009 Publicado por C.A.Margonper | 9. O Jardim, Episódio 1 | , , , , , , | No Comments Yet

Portais

Casas Assombradas

Fotografia de Asmundur
(www.flickr.com/photos/asmundur)
(www.hdri.wordpress.com)

Eu ainda não tinha visto aquela parte da casa. Como ela tinha sido construída num declive, ainda dava para ter janelas na cave e uma porta de saída para o jardim das traseiras. Havia janelas em quase todas as divisões e as portas do corredor encontravam-se abertas, deixando a luz do dia iluminar um pouco aqueles corredores que mais pareciam umas catacumbas de luxo.

- Se o meu pai fosse vivo na altura da reconstrução da casa, – confessou Elisete, dirigindo-se a uma das portas abertas do corredor – eu duvido muito que deixasse o Carlos gastar tanto dinheiro como gastou nas obras. Eu discutia com ele. Afinal, quem é que manda pôr mármore no chão de uma cave?!

Eu olhei para o chão. Mármore, de facto. E dos melhores. Elisete soltou um suspiro, continuando a andar e revendo toda a cave:

- Mas entre as dicussões e os trabalhos que iam sendo feitos, nasceu esta obra de arte, a casa mais bonita em que já vivi até hoje.
- Sem dúvida. – concordei eu, sem parar de olhar discretamente para as escadas.
- Por exemplo, – anunciou Elisete com um tom orgulhoso de voz – eu considero esta divisão uma das pérolas da casa.

Eu olhei para onde ela estava a apontar. Era uma espécie de ginásio, iluminado pela luz natural do sol que vinha das janelas, e como todo o ginásio que se preze, tinha um espelho gigantesco que cobria uma parede inteira de alto a baixo. Esqueci as escadas por momentos, enquanto olhava estupefacta para o espelho.

- Eu sempre quis ter aqui um ginásio. – continuou Elisete, mesmo ao meu lado – E o meu marido sempre quis ter aqui um estúdio de música. Decidimos então juntar as duas coisas.

Ela apontou para o outro lado do corredor, onde havia uma sala pequena, com o que efectivamente parecia ser um estúdio de gravação de sons.

- É o hobby dele, a música. – finalizou ela, com um sorriso – Deu imenso jeito para as aulas de tango, por acaso.
- Oh, meu Deus…

A Elisete continuou a falar, mas eu já nem a ouvia. Eu não conseguia tirar os olhos do gigantesco espelho. Dadas as condições certas, aquele espelho dava para libertar todas as almas do Limbo.

Não que todas as casas onde exista um espelho gigantesco instalado ao lado de um estúdio de som sejam propícias a ser assaltadas pelos espíritos. É só que havia um espírito à solta naquela casa a abrir portais toda a vez que vinha para cá e o Limbo está repleto de almas ansiosas por sair para este mundo. Se descobríssem os portais por onde o Abel se movia… Bom, digamos que aquela casa ficaria por vender até ao fim dos tempos. E eu nunca mais receberia a minha comissão.

Olhei de novo para as escadas. Já não se ouviam mais passos. O que significava que eu já não sabia por onde é que o velhote andava.

A voz de Elisete parecia vir do fundo do poço:

- Tenho tanta pena que o meu pai não esteja vivo para ver como ficou a casa. Ele teria refilado até ficar rouco com o que gastámos na reconstrução mas eu sei que ele teria adorado a nova decoração.
- Imagino… – comentei eu, distraída, vigiando intensamente os reflexos no espelho.
- Afinal, mantivémos quase tudo. Até pintámos a casa por fora com a mesma côr que antes…
- Pois…
- Vamos para o jardim?

Os portais abertos naquela casa só se fechariam quando o Abel partisse de vez para as Terras Eternas. E tinha que o fazer quanto antes.

- Ema?

De repente, voltei para o presente:

- Sim?
- Então, está distraída? – brincou ela.
- Não, não… Peço desculpa… Este espelho gigante… É fantástico. – olhei em volta – Ninguém diria que isto é uma cave.

Ela sorriu, com alguma tristeza no olhar.

- Eu adoraria ver o jardim agora. – acrescentei eu, muito depressa.

Ela ficou logo mais animada e virou-se para a porta de saída da cave. Eu aproveitei para olhar discretamente para as escadas outra vez, de ouvidos em alerta. Continuei a não ouvir nada e olhei apenas de relance para o espelho gigante antes de seguir atrás da Elisete.

Precisamente naquele momento, um nevoeiro rasteiro branco começou a escapar-se lentamente do espelho, espalhando-se pelo chão do ginásio, e duas pernas enegrecidas emergiram do lado de lá do espelho. Abel, com um ar abatido, caminhou novamente para fora do Limbo, vestido com uns farrapos queimados. Ele olhou para mim, com uma expressão triste. Algures na vizinhança, um cão ganiu.

-Oh, não. – suspirei eu, desalentada – Lá vamos nós outra vez.

Fechei a porta de imediato e tranquei-a, afastando-me logo dela. Apertei as mãos e rezei silenciosamente.

Não resultou, claro. Muito, muito lentamente, a maçaneta da porta começou a rodar. E de repente, a cave ficou gelada. A temperatura desceu tão bruscamente que ouvi as portas a estalarem-se. Por baixo da porta, uma névoa branca começou a escapar-se para o corredor, envolvendo os meus pés num frio gélido. Procurei a Elisete. Ela já tinha saído para o jardim, e felizmente, não veio atrás à minha procura.

- Abel! – exclamei eu.

O nevoeiro recuou de imediato, desaparecendo completamente por debaixo da porta.

- Você… É um velho… Teimoso! Fique aí até eu vir ter consigo, está bem?! Eu garanto-lhe que que terá a sua oportunidade de falar com a sua filha. Acalme-se!

Fiquei ali por momentos, a olhar para a porta. Nada. Não se ouvia nem um pio. Dirigi-me então para o jardim.

- Olhem-me só para isso… – refilei eu pelo caminho, zangada – Agora tenho os pés gelados! Detesto quando isso acontece!

No momento em que abri a porta que dava para o jardim, ouvi um tremendo estrondo atrás de mim. Virei-me de imediato. A porta trancada do ginásio abanava loucamente, e de dentro saía uma luz intensa que iluminava o corredor de forma alucinada e caótica. A violência com que a porta abanava nos gonzos era tal que tive a certeza de que a porta ia explodir ali mesmo e despedaçar-se em mil bocados.

O som de um tornado percorreu o corredor com fúria e o vento chegou até mim, derrubando vários objectos pelo caminho, puxando-me os cabelos para trás. Bateu-me na cara como uma bofetada.

Março 19, 2009 Publicado por C.A.Margonper | 8. Portais, Episódio 1 | , , , , , , | No Comments Yet

Memórias

Casas Assombradas

Fotografia de Duartte
(www.olhares.com/etraudez)

É engraçado como formamos uma imagem de uma pessoa que não conhecemos, e quando a vemos pela primeira vez, ela não corresponde à imagem que tínhamos dela. No entanto, quando Elisete Nolasco Vieira chegou no seu carro, ela tinha precisamente o aspecto que eu imaginei: alta, elegante e de uma extrema mas firme delicadeza. Era uma mulher de aspecto atraente e determinada, não aparentando nem pouco mais ou menos a idade que já tinha.

Ela saíu do carro e dirigiu-se logo a mim:

- Você é que é a Ema Reis?
- Sou, sim.
Ela estendeu-me a mão e eu apertei-a. Ela tinha os olhos do pai.
- Eu sou a Elisete. Só Elisete. Pode deixar o “dona” de lado.
Eu ri-me:
- Concerteza, Elisete.
Ela virou-se para a casa.
- Meu Deus. – desabafou ela – Há anos que não vinha aqui.
- A sua casa é lindíssima.
Ela inclinou a cabeça para mim, com um ar triste:
- A beleza de uma casa não vale de nada se não pudermos viver nela.
Olhei para ela:
- Tem toda a razão.

Ela não disse nada, por momentos. Depois perguntou:

- Você sabe do incêndio?
- Sim. Era mesmo sobre isso que eu lhe queria falar.
- Ah, sim? – estranhou ela – Já foi há mais de dez anos. É isso que está a tornar difícil a venda desta casa?
Hesitei em responder-lhe:
- Mais ou menos. Quanto mais eu souber sobre o que se passou na altura, mais preparada estarei eu para responder a eventuais perguntas de um potencial comprador.

Elisete não disse nada, assentindo simplesmente com a cabeça. Depois caminhou na direcção da casa, de chave na mão. Eu fui atrás dela. Ela olhou para mim, observando-me enquanto destrancava a fechadura:
- Você é nova na agência, não é?
Eu sorri-lhe:
- Sim, comecei a trabalhar agora. Esta é a minha primeira casa.
- Neste caso… – disse ela, rindo-se enquanto entrava na casa – Lamento imenso. Podia ter-lhe calhado uma casa mais fácil de vender.
- Não faz mal. Eu não tenho medo de desafios.

Ela olhou novamente para mim, admirada. Depois fechou a porta e pousou as suas coisas na mesinha que havia à entrada, pendurando também o casaco no bengaleiro. Eu olhei discretamente à volta, procurando o mínimo sinal da presença do velhote ou da confusão que ali se instalara no dia anterior. Não havia nem uma coisa, nem outra.

- Eu adoro esta casa. – murmurou a Elisete, dirigindo-se à magnífica sala de estar – Quando fizémos a reconstrução, aproveitámos para renová-la completamente, até as fundações. Quando as obras acabaram, isto não era mais uma casa, era um palácio.
- Concordo absolutamente.
- Vivi aqui tantos anos… Desde que nasci, aliás. Os meus pais compraram esta casa pouco antes de eu nascer. Eles queriam ter mais filhos mas… A minha mãe morreu durante o meu parto.
- Ah, sim…? – disse eu, apanhada de surpresa – Lamento.
Ela sorriu:
- Não se preocupe. O meu pai tomou muito bem conta de mim, tão bem que nunca mais voltou a casar-se. Dizia que a minha mãe era o único amor da vida dele e que não queria ter mais ninguém depois dela.
- Isto é muito romântico.
- E muito solitário também.

Ela olhou em volta e sacudiu a cabeça, como se protestasse contra algo:

- Ele morreu aqui no incêndio, sabe? Sózinho.
Eu assenti com a cabeça:
- Sei. Lamento muito. É uma forma horrível de se morrer.
- Sim, não era nada o fim que o meu pai merecia.

Ela suspirou fundo:

- Ainda tentámos fazer uma vida normal aqui depois de reconstruir a casa, mas havia aqui um ambiente de tristeza tão grande e tão opressivo que se tornou insuportável viver aqui. Os meus filhos, que adoravam o avô, já não aguentavam mais. Acordavam todas as noites a chorar…

A voz dela quebrou-se mas ela controlou-se bem:

- Tivémos que sair. Não podíamos ficar mais aqui. Ao fim de uns meses, mudámo-nos para Sintra.
- Que pena. – comentei eu.
- O meu marido adorava esta casa, tanto quanto eu. Ainda hoje, ele diz que as suas melhores memórias são daqui, desta casa. Até das discussões que ele às vezes tinha com o meu pai, ele tem saudades. Quando ele morreu, o meu marido Carlos chorou como se lhe tivesse morrido o seu próprio pai, e durante muito tempo, ele sentiu-se culpado pelo o que aconteceu aqui. E não só ele, eu também.

- Porquê? – perguntei eu, admirada.

- Tínhamos ído passar aquele fim-de-semana fora em Setúbal, em casa dos pais do Carlos. Se não tivéssemos saído, ele ainda hoje estaria vivo. Ou pelo menos, não teria morrido num incêndio horroroso.

- Ninguém imagina uma coisa dessas, não é, Elisete? Quer dizer, se fôssemos todos capazes de adivinhar o futuro, seríamos todos milionários, certo?

Ela riu-se.

- Certo.

Ela olhou em volta, de novo.

- Bem, agora que estou aqui, eu tenho que ver a casa toda. – disse ela, entusiasmada – Não venho aqui há eras.
Eu estendi as mãos à frente dela:
- A casa ainda é sua.

Explorámos outra vez – outra vez para mim – a casa toda, desde o andar térreo até ao sotão, o qual tinha sido transformado num grande escritório luxuoso. De divisão em divisão, ela falou durante o que me pareceu serem horas, dando-me detalhes sobre a casa e a sua história, descrevendo a aventura que foi reconstruí-la toda de novo, desde o telhado até às suas fundações.

Das janelas inclinadas do sotão tinha-se uma vista muito agradável para o jardim da casa e para os campos de cultivo que se estendiam até se perderem de vista. estava sol, mas parecia que a luz do sol nãoconseguia alcançar os campos, nem a casa. De braços cruzados, Elisete admirou a paisagem, encostada à janela:

- A ideia era o meu marido trabalhar aqui… – disse ela, com um ar sonhador – Ele passava muito tempo fora de casa, sempre a trabalhar, e quando fizémos a reconstrução da casa, aproveitámos para construir finalmente um escritório com condições para ele trabalhar, aqui no sotão, e ao mesmo tempo, estar mais tempo connosco…

Elisete abanou a cabeça:

- Que desilusão.

Eu sorri-lhe, compreensiva, olhando em volta. O escritório estava decorado como o resto da casa: com grande sumptuosidade. Tinha uma grande secretária feita em madeira maciça, uma cadeira de cabedal, tapetes persas, sofás, estantes cheias de livros, chão em madeira, e ainda uma gigantesca televisão de plasma. O meu antigo apartamento cabia ali.

Pouco depois, a Elisete saíu do escritório e eu fui atrás dela, preparando-me para fechar a porta atrás de mim. Quando ia a fechá-la, reparei, com um baque no coração, que o Abel estava ali, bem no meio do escritório, a olhar para mim com uma expressão desesperada.

O corpo do pobre velhote estava coberto de cicatrizes e queimaduras. Ele começou a andar na minha direcção e eu fechei imediatamente a porta, afastando-me logo dela. A Elisete encontrava-se já a descer as escadas. Felizmente, não olhara para trás, pois teria dado com uma cena insólita: eu, feita barata tonta, às voltas com uma porta.

Ouvi um barulho na porta. A chave estava na fechadura, do lado de fora. A maçaneta começou lentamente a rodar e eu tranquei logo a fechadura, antes que o Abel conseguisse abrir a porta.

- Abel! – chamei eu, o mais alto que podia sem atrair a atenção da Elisete – Fique aí! Acalme-se! Você há-de falar com a sua filha, eu prometo! Mas agora não é nada boa altura!

Fiquei a olhar para a porta durante uma eternidade. Para meu alívio, ele largou a maçaneta. Fui logo a correr para as escadas, antes que a Elisete desse pela minha falta. Ela tinha continuado a descer as escadas até à cave.

A meio do caminho, ouvi um ruído vindo de lá de cima. Parei e olhei para cima. Voltei a escutar com atenção.

Passos.

O velho teimoso não se tinha deixado ficar sossegado no escritório.

Outubro 3, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 7. Memórias, Episódio 1 | , , , , , , | 4 Comentários

Em casa

Casas Assombradas

Fotografia de Bruno Abreu
(www.olhares.com/Greenstar)

Atirei-me ao sofá e encostei a cabeça para trás, feliz por estar finalmente em casa. Percebi que o meu marido também estava, pelos sons que me chegaram aos ouvidos, vindos da cozinha.
- Alexandre? – chamei eu.
- Oi!
Olhei para o meu relógio.
- O que é que estás a fazer em casa tão cedo?
- Olá para ti também!

Soltei um suspiro, fechei os olhos e esfreguei a testa. Estava completamente de rastos. Quando voltei a abri-los, o homem da minha vida estava à minha frente, com duas canecas de chá nas mãos e um sorriso.

- Dia difícil? – perguntou ele.
- Não imaginas.
- Pelo aspecto do teu cabelo, parece que tiveste um encontro inesquecível com um furacão.
- Todos os encontros com furacões são inesquecíveis, meu amor. – disse-lhe eu, pegando numa das canecas que ele trazia.

Ele sentou-se ao meu lado, e beijou-me na testa, tentando ao mesmo tempo pôr alguma ordem no meu cabelo.

- Vais levar umas horas valentes a arranjar este cabelo. – gracejou ele, a sorrir.
- Levei a tarde inteira a arrumar uma sala que é maior que a nossa casa inteira. Ficou tudo de pantanas.
Suspirei alto:
- Só espero que aqueles vasos que se partiram não sejam da dinastia Ming, ou coisa que o valha.
- Qual é a história desta vez? – perguntou ele a rir-se.
Encostei-me a ele:
- Um velhote… Um incêndio… Ele quer ver os netos… Mas a casa já não é habitada há mais de dez anos.
- Fantástico! – disse ele, engolindo um pouco de chá – Ele tem muito mau aspecto?
- Se estiver calmo, não.
- Eles nunca são calmos, Ema.
Olhei para ele. Já não sorria.
- Não te preocupes, amor. Este é dos fáceis.
Ele não disse nada.

Nisso, as cortinas que cobriam as duas grandes portas de vidro da nossa sala, as quais davam para as traseiras da casa, ondularam e alguém entrou. Era o meu rapaz, vestido com as suas calças côr-de-laranja e camisa branca e amarela. Ele veio até mim:
- Olá, Gustavo.
- Olá, Ema. – respondeu ele, empurrando os óculos que lhe escorregavam pelo nariz abaixo.
- A ele dizes olá. – refilou o Alexandre, bebericando o seu chá.
Sorri para ele:
- Ele só tem onze anos.
Olhei outra vez para o miúdo. Tinha o cabelo louro todo arrebitado.
- Viste a minha mãe? – perguntou ele, com uma encantadora voz infantil.
Fiz que não com a cabeça.
- Ela ainda não está em casa. – he said, olhando para a porta de saída – Can I wait for her here?
- Claro, meu querido. – respondi-lhe eu, apontando-lhe o outro sofá – Senta-te aí.
Ele sentou-se no sofá, pondo-se logo a trocar canais com o comando.
- Detesto quando ele faz isto. – reclamou o Alexandre.
- Chiu… Deixa-o estar.

Observei silenciosamente o pequeno. Ele concentrava-se na televisão, muito entusiasmado, como se tivesse acabado de receber um presente.

- Tenho de voltar lá amanhã. – disse eu para o Alexandre.
- Claro que tens. – ripostou ele, irónico – Caramba, Ema… De todas as casas que há à venda neste país, a primeira tinha que te calhar ser logo uma assombrada.
- E queres ouvir a melhor?
- O quê?
- Foi uma partida. O meu próprio chefe é que me mandou para lá. A casa está tão afectada que sempre que entra lá alguém, algo acontece. Ele sabe disso e então manda para lá todos os novatos…
O Alexandre desatou a rir-se à gargalhada.
- Não tem graça nenhuma, Alexandre.
- Ai, isso é que tem!
Ele continuou a rir-se, sob o olhar confuso do Gustavo.
- Não ligues. – disse eu para o miúdo, levantando-me do sofá.

Fui até à minha mala e procurei o meu telemóvel. Consultei o processo da casa e liguei para um número que lá estava. Atendeu-me uma voz delicada:
- Está?
- Está sim, boa tarde. Eu estou a falar com a Dona Elisete Nolasco Vieira?
- É a própria.
- Como está? Daqui fala Ema Reis, da Hugo Hauser.

Houve uma pausa. Depois ela repetiu, hesitante:

- A agência?
- Sim. Peço desculpa, é má altura para lhe ligar? Eu posso ligar noutra hora.
- Não, não… Nada disso. É só que já há bastante tempo que não falava com vocês. O que é que aconteceu, conseguiram vender a minha casa?
- Infelizmente, ainda não. E era sobre isso mesmo que queria falar consigo, se fosse possível. Pode vir ter comigo amanhã? Podíamo-nos encontrar na Casa do Lumiar.
- Não podemos falar agora ao telemóvel?
- Espero que não se importe, mas eu preferia falar consigo em pessoa, se puder ser. – respondi eu, com serenidade – Mas se lhe fôr muito difícil, eu posso…
- Espere um momento, por favor.

Durante um minuto, não se ouviu nada no telemóvel. Ela tinha tapado o bocal. Depois, finalmente, lá voltei a ouvir a voz dela.

- Pode ser amanhã à tarde?

Setembro 23, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 6. Em casa, Episódio 1 | , , , , , , | No Comments Yet

Abel

Casas Assombradas

Fotografia de Jorge Filipe Pires
(www.olhares.com/jorgefpires)

Como expliquei antes, a fronteira entre a Vida e o Além é um limbo sem fim. Portanto, se eu quiser encontrar alguém que ande por lá perdido, uma boa forma de o fazer é através de som. O som, em determinadas frequências audíveis apenas por animais, faz vibrar o ar em ondas que alteram as barreiras entre o mundo deles e o nosso, de forma a guiar o espírito que tento atrair em direcção a mim.

Estas almas errantes têm, na verdade, a capacidade de ultrapassar a fronteira sempre que quiserem, mas nem sempre se dão conta de que o fazem. O Abel ainda não se tinha apercebido bem do que lhe tinha sucedido, e andava para cá e para lá sem fazer a menor ideia de que pelo caminho, assustava as pessoas de morte. Para quem não os consegue ver é como se não existissem, mas é sempre possível sentir, de alguma forma, a sua presença. No caso do Abel, a força da sua presença era tremenda.

Agora precisava o chamar para cá, e não fazia a menor ideia de onde é que ele se encontrava. É mais fácil encontrar uma estrela perdida no Universo do que uma alma perdida no Limbo. Para além do som, eu ia precisar de um bocadinho de luz do sol.

Do meu saco tirei um candeeiro de ferro forjado e coloquei-o em cima de um móvel encostado a uma das janelas enormes que davam para um terraço nas traseiras da casa. Dali dava para ver o sol a preparar-se para se pôr no horizonte, e a luz batia em cheio naquela janela, inundando a sala com uma cor quente. A seguir, coloquei no candeeiro vários jarrinhos de cristal com um formato especial.

Na parede ao lado do móvel estava muito convenientemente instalado, um espelho gigantesco. Espelhos são belíssimos portais de entrada para o nosso mundo. Por vezes, elas saiem por ali, estas almas perdidas. Olhei em volta. Havia muitos espelhos naquela casa.

- Não me admira que o velhote venha cá tantas vezes.

Fui até ao andar de cima.

Voltei a espreitar os quartos todos que havia. Havia o quarto principal, uma suite de casal, decorado com todo o luxo. Havia outros dois quartos, que percebi serem dos rapazes. Espreitei ainda mais três quartos que pela decoração, pareciam ser de visitas. O quarto do velhote era um daqueles. Estando os três decorados de maneira muito semelhante, era difícil adivinhar qual deles seria o do velhote. Tinham sido todos remodelados depois do incêndio e notava-se bem que tinham tido muito pouco uso desde então.

E agora? O sol estava prestes a pôr-se, eu não tinha muito tempo. Tornei a espreitar os três quartos de visitas, tentando desta vez observá-los com mais atenção. E então vi. Num dos quartos, estava um livro em cima da cama. Um livro que não estava ali antes. Entrei no quarto e peguei nele. Tinha o aspecto de ter sido folheado muitas vezes.

- Hum… – murmurei eu, baixinho – Quem havia de dizer?

Era uma colecção de poemas de vários autores, e havia uma página que ele tinha marcado. Era o poema de Tinúviel, escrito pelo J.R.Tolkien. Reconheci-o logo, por causa do miúdo que vai lá à minha casa. O pequeno gosta muito do Senhor dos Anéis e lê-o muitas vezes, com uma paixão fora do vulgar. Seja como fôr, o velhote devia gostar imenso daquele poema. Imaginei que talvez lhe lembrasse a mulher, e por isso, lia-o com frequência.

Levei o livro para baixo, passando pela cozinha. Enchi um jarro com água e fui até à sala, em direcção ao candeeiro. A água é uma coisa fantástica. Reflecte a luz de uma forma extraordinária, iluminando os cantos mais obcuros de onde quer que estejamos.

- Tu és a Rainha da Terra, Fonte da Vida. – murmurei eu, enquanto enchia cuidadosamente os doze jarritos do candeeiro, um a um – Sem ti, não somos nada e contigo, somos tudo.

A luz do sol ligou-se imediatamente à água e a sala ganhou logo uma luminosidade etérea. Liguei o meu PDA à aparelhagem que estava coberta de pó, mas que funcionava na perfeição. Procurei a música que tinha em mente.

- Eu sei qual a música perfeita para ti, velhote. – disse eu, seleccionando uma música de que eu própria gostava bastante – Vamos resolver o teu problema num instante.

Sentei-me no sofá, enquanto os delicados sons de uma flauta-de-pan enchiam suavemente o ar, disfarçando os ultrasons que o PDA lançava. Ouvi logo os cães da vizinhança começarem a ladrar. Era uma melodia doce, acompanhada pelo som grave de um baixo. Uma combinação fantástica, na opinião dessa vossa amiga. Comecei a ler o poema devagar, em voz alta:

The leaves were long, the grass was green,
The hemlock-umbels tall and fair,
And in the glade a light was seen
Of stars in shadow shimering.
Tinúviel was dancing there
To the music of a pipe unseen…

Continuei a ler durante um bom tempo, até ver finalmente um movimento pelo canto do olho. Olhei para a luz reflectida no espelho pelo candeeiro de água. Abriu-se ali um portal, lentamente, como tinta lançada na água, mas em pleno ar. Algures, um cão ganiu e calou-se. Pouco a pouco, os outros cães calaram-se todos.

Uma forma humana apareceu e atravessou o portal, caminhando vagarosamente em direcção à aparelhagem. Ali estava ele, o velho Abel. Tinha lágrimas a correr-lhe pelo rosto vincado de rugas, enquanto ouvia a melodia. Os espíritos são afectados mais profundamente pela música do que nós, os vivos.

Ele recitou o resto do poema comigo, o que ainda levou vários minutos. Eu lia do livro, ele sabia aquilo tudo de cor e salteado. Parecia o meu miúdo. Quando acabámos, pousei o livro no sofá e levantei-me, aproximando-me com toda a calma do homem.

- Eu consigo ouvi-lo. – disse-lhe eu, olhando-o nos olhos – E vê-lo.
Ele virou-se para mim, estupefacto.
- Consegue ver-me? – perguntou ele, de olhos muito abertos.
Ele tinha uns olhos incrivelmente azuis.
- Sim. O meu nome é Ema. Ema Reis. E sou sua amiga.
Ele sorriu:
- Consegue ver-me! – começou a rir-se, todo feliz e entusiasmado como uma criança – Consegue ver-me! Consegue ver-me…

Ele parou de se rir e apontou para as escadas que davam para o andar de cima, com uma expressão ansiosa no olhar.

- Houve um incêndio… E… E…

Ele começou a tremer, com a frustração própria dos velhos que queriam expressar-se rapidamente mas que não o conseguiam devido à idade avançada. Aquilo comoveu-me imenso e eu agarrei-lhe a mão:

- Eu sei.

Ele olhou para mim, surpreso. Há anos que ninguém lhe tocava e a mão dele estava gelada. O calor é algo que só existe no nosso mundo. O Limbo é um mundo árido, escarpado, escuro e frio.

- Eu estou aqui, Abel. Estou aqui consigo e vou ficar aqui até você me dizer o que tem andando a tentar dizer à sua família durante esses anos todos.

Ele fitou-me, mais estupefacto ainda.

- Tenho todo o tempo do mundo. – prometi-lhe eu, confiante.

As lágrimas voltaram a invadir o azul imenso dos seus olhos:
- Eu tentei… Tentei dizer-lhes, mas eles não me ouviam. E depois, desapareceram.
- E sempre que eles voltavam, o Abel tentava com mais força ainda, não era? Porque quando vinham, era sempre por pouco tempo.
- Sim! Sim!

“Infelizmente, isto assustou-os ainda mais” , pensei eu.

- Lá em cima… – disse ele – Eu estava a dormir e… e… Senti calor nas pernas… Mas eu estava muito tonto, e tentei levantar-me… Mas caí! E doía tanto! Doía tanto…

O corpo dele começou a sofrer uma transformação estranha. As mãos dele e as pernas pegaram fogo e começaram a ficar encarquilhadas, a queimarem-se como papel. Na cara, as cicatrizes voltaram a aparecer.

- Abel… – chamei-o eu – Abel!

Ele acordou de repente, abrindo muito os olhos e fixando-os em mim. As cicatrizes e as labaredas desapareceram.

- Abel, você adormeceu com um cigarro nas mãos, ou na boca, no seu quarto?
- Não!
Os olhos dele voltaram a inundar-se com lágrimas:
- Não sei… Eu não sei!

“Pronto.”, pensei eu, “Temos um problema.”

- Eu fumava muito mas não estava a fumar no meu quarto. Eu nem sei porque é que eu estava no meu quarto. Não sei como é que o fogo começou. Eu estava tão tonto… Era como se tivesse tomado os meus medicamentos… Mas eu não tomei nada! Só os tomo à noite!

“Então, ou a polícia se enganou, ou alguém mentiu.”

- É isso que eu tenho tentado dizer aos meus netos, e à minha filha. Enquanto não disser, não posso partir em paz.

Ele olhou para a aparelhagem. A melodia enchia o ar de sons doces, o que parecia tranquilizá-lo.

- Não fui eu que comecei o incêndio. – ele caminhou em direcção à aparelhagem – Não fui eu que destruí a casa.

Ele pôs a mão em cima da aparelhagem, e uma expressão de tristeza invadiu-lhe o olhar:

- Mas eles agora não estão aqui. Desapareceram para sempre… – ele olhou para mim – …e esta casa nunca mais voltará a ser o que era.

Nisso, uma sombra encheu rapidamente a sala de estar e um tornado violento formou-se precisamente no lugar do portal por onde o velhote tinha surgido, quando saíra do Limbo. A luz do dia desapareceu por completo e o Abel foi sugado pelo tornado, desaparecendo pelo vórtice adentro, em direcção ao espelho. A bela melodia alterou-se, transformando-se numa cacofonia de sons horríveis, que se misturaram com a ventania. O tornado atirou tudo quanto se encontrava naquela sala para o ar, partindo uma série de coisas pelo caminho e quando acabou de engolir o Abel, desfez-se tão repentinamente como se tinha formado. A luz do sol regressou à sala e o vento parou de soprar à minha volta. Aos meus pés, caíu o livro do Abel.

Olhei em volta, sentindo os meus cabelos a voltarem para o seu lugar. A sala estava a maior confusão.

- Lindo. – resmunguei eu.

Agosto 7, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 5. Abel, Episódio 1 | , , , , , , | No Comments Yet

O grande incêndio

Casas Assombradas

Fotografia de João Azevedo
(www.olhares.com/Jonas)

Parei o carro mesmo em frente à casa. Agora que eu sabia o que se passava lá dentro, eu via-a com outros olhos. Era uma casa parecida com todas as outras vivendas que havia ao longo daquela rua ajardinada, mas com um aspecto muito mais recente. Podia-se ler “A Casa do Lumiar” numa placa posta por cima da porta da entrada, embora aquela rua fosse nos arredores de Lumiar, e não na cidade propriamente dita.

Peguei na minha mala, num saco que tinha ido buscar a casa, na minha pasta, e saí do carro. No momento em que tranquei a viatura, vi uma senhora já de alguma idade a sair da casa do lado oposto da rua. Ela trazia um xaile e tentava aconchegar-se nele. Na altura estava uma tarde de Outono bastante fria.

- Boa tarde. – cumprimentou-me ela, quando se aproximou de mim.
- Boa tarde.
- Você é da agência, não é?
- Sou, sim. – confirmei eu, estendendo-lhe a mão – Chamo-me Ema Reis.

Ela apertou-me a mão:

- Como está? O meu nome é Marta Oliveira, moro mesmo aqui em frente. Vocês já estiveram cá hoje, não estiveram?
- Sim, vim cá outra vez para…
- Eu vi uma ambulância a levar uma moça daqui.

Hesitei por um momento, observando a senhora e tentando perceber o que ela queria.

- A minha colega teve uma má diposição e desmaiou. – expliquei eu – Bateu com a cabeça no chão e tive que chamar uma ambulância.
- Oh, meu Deus! – afligiu-se a senhora, apertando a mão contra o peito – Mas ela está bem?
- Tenho a certeza de que sim. Ainda não falei com ela, mas eu pedi aos pais dela para…
- Esta casa foi sempre um palco de desgraças. – desabafou ela, de repente.

Aí, calei-me. Olhei para ela com mais atenção. Devia ter uns sessenta e muitos anos. Cabelos pintados, vestida com roupa da melhor qualidade, baixinha, olhos cansados e cheios de rugas bem disfarçadas pela maquilhagem. Havia uma expressão de bondade na sua face.

- Como assim? – perguntei eu.
- Houve um incêndio e a casa ficou quase completamente destruída.
Fiquei logo alerta à menção de “incêndio“.
- Desde então tem acontecido uma série de acidentes esquisitos…
- Esquisitos? – repeti eu, muito interessada.
- Sim. Havia um homem já velhote, mais velho do que eu. Ele era o dono da casa e vivia aqui desde que se tinha reformado. O senhor Abel, era como ele se chamava. Abel Nolasco.
- Abel Nolasco?
- Sim, e ele fumava muito. Fumava mesmo muito. Ele costumava dizer que se deixasse de fumar, morria. Ironia das ironias, um dia deixou-se adormecer na cama com um cigarro aceso nas mãos e ainda por cima, veja bem, o gás do fogão não estava bem fechado. Uma coisa juntou-se à outra e deu-se uma explosão que se ouviu no bairro inteiro. Partiu as janelas todas da minha casa. – acrescentou ela, apontando para a sua própria casa atrás dela – E das outras ao lado, claro.

Ela soltou um suspiro:

- Coitados. Eles ainda eram tão novinhos…
- Quem?
- Os netos! – exclamou ela, encolhendo os ombros, como se fosse óbvio – Os dois netos, o Pedro e o Ricardo. Já devem estar uns homens, agora… Nunca mais os vi, desde que se foram embora. Mas o que eles sofreram com a morte do avô…
Ela abanou a cabeça:
- Eles adoravam-no.
- O que é que quer dizer com eles terem ido embora? Eles viviam aqui?
- Sim, o Abel vivia aqui com a filha Elisete e o genro, que era o Carlos, e os dois filhos deles, mas eles estavam todos fora naquele fim-de-semana. Tinham ido almoçar à casa dos pais do Carlos, em Setúbal. O Abel só não foi porque não se sentia bem.
- Eu não me lembro de ler nada sobre um incêndio aqui no processo…

Procurei um papel na minha pasta e li o que estava lá escrito:

- A casa está em nome de Elisete Nolasco Vieira.
- Bem, a casa era do Abel. Quando ele morreu, a casa passou para o nome dela. Eles ficaram muito bem, sabe? A Elisete herdou muito dinheiro e várias propriedades do Abel. Na altura, o Carlos não estava muito bem de finanças e pareceu tudo uma coincidência muito cruel. Esteve aqui a polícia e tudo! O pobre Carlos ia sendo preso por suspeitarem de que ele é que tinha ateado o fogo.
- Pois, imagino.
- Mas foi a própria polícia que chegou à conclusão de que tinha sido um acidente.

Eu adoro pessoas como a Marta. Elas contam tudo o que precisamos de saber sem termos que perguntar quase nada.

- Os pequenos sofreram muito. – continuou ela – Levaram muito tempo para recuperar da morte do avô. Eu lembro-me tão claramente como se tivesse sido ontem.
Ela abanou a cabeça outra vez:
- Pobrezinhos! Ainda por cima tiveram que ficar numa casa que lhes era estranha, enquanto esta era reconstruída. As obras levaram meses. Quando voltaram, a casa era a mesma, mas ao mesmo tempo… Já não era mais a mesma, percebe?
- Como assim?
- Eles recuperaram a casa, como vê, e puseram-na tal e qual como ela estava, a mesma côr e tudo. Aproveitaram apenas para mudar a canalização e os cabos da electricidade, e essas coisas todas. Mas quando eles voltaram para aqui…

E lá voltou ela a abanar a cabeça outra vez.

- Começaram a acontecer coisas estranhas. Molduras de fotografias que caíam sózinhas dos móveis e que se partiam. Livros que desapareciam das prateleiras, objectos que mudavam de sítio sem ninguém lhes ter tocado, principalmente no quarto que era do Abel. Havia gritos a meio da noite… Os miúdos acordavam a chorar. E de vez em quando, pairava no ar um cheiro a tabaco mas para além do Abel, ninguém fumava nesta casa.  – ela estremeceu – Era como se o Abel ainda estivesse vivo, sabe? Até me dá arrepios!

Apenas pude sorrir.

- Eles viveram aqui mais uns… Creio que uns quatro meses. Depois foram-se embora e nunca mais voltaram. Puseram a casa à venda há coisa de dez anos mas até agora, ainda não a conseguiram vender. É que toda a vez que alguém entra nesta casa, alguma coisa má acontece. Quando vocês apareceram aqui esta tarde, esta casa já não recebia visitas há pelo menos um ano. E de repente, vejo aqui uma ambulância? Meu Deus, eu nem sequer me atrevo a entrar lá dentro!
- Pois… – disse eu – Mas eu terei que entrar. Tenho de vender esta casa.
- Não quero desanimá-la, mas eu acho que não vai conseguir.

Sorri novamente:

- Veremos. – estendi-lhe a mão outra vez – Muito obrigada pelo seu tempo, Marta. Deu-me algumas informações valiosas.
- Valiosas? – estranhou ela, apertando-me a mão e rindo-se.
- Sim, valiosas. Muito obrigada. Tenha o resto de uma boa tarde.
- Igualmente.

E dirigi-me para a casa, sentindo os olhos da Marta pregados nas minhas costas.

Julho 13, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 4. O grande incêndio, Episódio 1 | , , , , , , | No Comments Yet

Hugo Hauser, Lda.

Casas Assombradas

Fotografia de Paulo Medeiros
(www.olhares.com/paulomed)

Quando cheguei à agência, fui direita ao gabinete do meu chefe. Encontrei-o sentado à secretária:
- Olá, Paulo. – cumprimentei-o eu, friamente.
Ele olhou para mim, recostando-se na cadeira com um ar divertido:
- Ema! Então, encontraste a Casa do Lumiar?
- Humhum! – depois acrescentei, num tom irónico – E encontrei o velhote também.
Ele fez-se desentendido:
- Qual velhote?
Pousei as mãos na secretária, falando com firmeza:
- O velhote todo queimado, que vive lá. Só que não vive.
Ele não se aguentou mais e rebentou de riso, batendo com as mãos na secretária com quantas forças tinha, como um doido. Fora do gabinete, todos os outros desataram a rir-se também.
- Não tem graça nenhuma, Paulo. A Joana desmaiou de susto.
Ele riu-se ainda mais:
- Ema, nós fazemos sempre isso aos novatos! A Casa do Lumiar é como um teste, percebes? Quem conseguir sair de lá pelo seu próprio pé…
E soltou outra barrigada de riso, batendo na secretária. Eu fiquei simplesmente a olhar para ele, incrédula.
- Não fiques tão zangada, Ema! Foi só uma partida!
Cruzei os meus braços, indignada:
- A Joana está no hospital.

Ele parou finalmente de rir e ficou a olhar para mim de boca aberta, estupefacto. Fora do gabinete, o silêncio caíu como uma pedra.

- No hospital?! – gritou ele.
- Sim, no hospital. Tive que chamar a ambulância. Quando ela desmaiou, bateu com a cabeça no chão de tal forma que vou ficar muito espantada se não lhe descobrirem um traumatismo craniano.
Ele não conseguiu proferir um som. Preparei-me para sair do gabinete.
- Onde é que vais? – tartamudeou ele.
- Vou até à Casa do Lumiar.
De repente, ele saltou da cadeira, como se tivesse levado um choque:
- Hã?! Não!
Virei-me para ele, surpreendida.
- Não é preciso! – continuou ele, dando a volta à secretária – Eu dou-te outra casa!
- Eu não quero outra casa. Quero esta.
- Mas esta casa está à venda há anos, Ema! Ninguém a consegue vender!
- Eu quero ir lá à mesma.
Ele fitou-me, embasbacado:
- Mas porquê?! Quero dizer…
- A casa ainda está à venda ou não? – perguntei eu.
- Está.
- E quem ficou de a vender, a Hugo Hauser, certo?
- Certo. – respondeu ele, cuidadosamente.
- E a quem é que atribuíste a venda desta casa?
Ele olhou-me com mais desconfiança ainda:
- A ti.
Sorri-lhe:
- Isso mesmo.

E saí do gabinete, observando com satisfação o olhar atordoado de todos os meus colegas, enquanto passava por eles em direcção à saída.

Junho 29, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 3. Hugo Hauser, Lda., Episódio 1 | , , , , , , | No Comments Yet

A Casa do Lumiar

Casas Assombradas

Fotografia de Marc Dargent
(www.olhares.com/baphil)

Eu só comecei a envolver-me com casas assombradas quando me tornei numa agente imobiliária. Antes de vir para a Hugo Hauser, eu era uma assistente administrativa que tinha trabalhado durante anos em várias empresas diferentes, até ter arranjado um posto como secretária na agência, onde ainda fiquei durante um ano antes de me ter resolvido a mudar de ramo e passar a vender casas também.

Como este negócio era novo para mim, os meus prezados colegas resolveram pregar-me uma partida, a mim e a uma outra jovem moça que dava também os seus primeiros passos nesta profissão. De todos eles, o mais entusiasmado era o meu chefe, que nos assignou a venda de uma casa que todos na agência sabiam estar assombrada, algures no Lumiar.

As casas assombradas valem muito menos no mercado do que as casas “normais”. Todos os clientes afirmam não acreditar em fantasmas, mas a verdade é que ninguém quer comprar uma casa suspeita de ser habitada por presenças do Além. Nós não fazíamos a menor ideia de que a Casa do Lumiar estava à venda há anos, e que era famosa na Hugo Hauser pela existência de actividades paranormais.

Como é óbvio, ninguém na agência sabia do meu “talento especial”. A capacidade de ver e falar com fantasmas não é coisa que eu ponha no meu currículo.

Nós lá fomos a Lumiar. Queríamos ver primeiro a casa antes de a vender. Assim que chegámos, explorámos a casa de alto a baixo. Vimos todas as divisões. A casa inteira estava decorada com um luxo inesperado: mobília de madeira maciça, candeeiros enormes, sofás em cabedal, tapetes persas, quadros lindíssimos nas paredes… Não havia razão para aquela casa não ter sido vendida há mais tempo, e estávamos precisamente a comentar isso quando, de volta à sala principal da casa, encontrámos um homem já velhote estacado bem no meio dos sofás.

- Quem é o senhor? – perguntei-lhe eu, espantada.

Depois olhei para todos os lados:

- E como é que entrou aqui?

O velhote olhou para nós, abrindo muito os olhos de surpresa. Não disse nem uma palavra. Em vez disso, ele levantou os braços e começou a andar na nossa direcção muito depressa. O seu aspecto começou a mudar, transformando-se de repente numa coisa escanzelada e feia, cheia de cicatrizes e o que me pareceu ser queimaduras por todo o corpo. Quando estava prestes a alcançar-nos, ele abriu a boca e um grito hediondo encheu a casa, fazendo tremer as paredes.

Assustei-me a valer, mas a minha colega desmaiou, batendo com a cabeça no chão. Quando voltei a olhar para o velhote, este tinha desaparecido. Levei alguns minutos a recuperar a calma, olhando em todas as direcções.

- Mas que raio é que se passa aqui? – perguntei eu em voz alta, ainda a tremer.

Tentei acordar a minha colega, dando umas palmadinhas suaves na cara dela:

- Joana… – chamei-a eu – Acorda, rapariga, vá…

Ela abriu os olhos, devagarinho, e levou uma mão à cabeça. Gemeu baixinho, sem despertar completamente. Ajudei-a a levantar-se e a sentar-se no sofá.

- O que é que se passou? – perguntou ela, com a voz fraca – Parece que levei com um camião em cima…
- Não foi nenhum camião.

Ela olhou para mim com um ar estranho.

- Tu sentiste-te mal de repente e desmaiaste. – apressei-me eu a explicar – Deixa-te estar aí quietinha, que eu vou chamar uma ambulância.
- Uma ambulância…? Mas é preciso…?
- Sim, é preciso. Não gostei do som que a tua cabeça fez quando bateste com ela no chão.

Liguei o número no meu telemóvel. Ela levou a mão até à cabeça outra vez e olhou em volta, confusa:

- Não estava aqui um velhote?
- Não, foi impressão tua. – respondi eu, logo de imediato – Agora deixa-te estar aí quieta.

Enquanto esperava que a ambulância chegasse, fui à procura do velhote em todas as divisões da casa, mas ele não voltou a aparecer. Pensei na expressão de sofrimento que ele tinha quando soltou aquele grito horrível e senti arrepios a correrem-me pela espinha baixo. Mas havia uma súplica infinita nos seus olhos. Aquele homem não tinha tentado assustar-nos. Tinha era tentado comunicar connosco.

Liguei para a agência. Atendeu-me a secretária do meu chefe, cuja voz de fumadora revelava os seus mais de cinquenta anos de idade:
- Hugo Hauser, Lda., boa tarde, fala a Graça Müller.
- Olá, Graça. – cumprimentei-a eu – O Paulo está?
- Agora de momento não, querida.
Ia começar a explicar a ela o que se tinha passado, quando ouvi alguém a falar por trás dela:
- Então, elas já viram algum fantasma?
Uma gargalhada geral invadiu-me os ouvidos.
- Calem-se! – refilou a Graça, sem tapar bem o bocal do telefone – Continua, Ema.

Desliguei o telemóvel. Senti-me estúpida e zangada ao mesmo tempo. Olhei para a Joana, semi-desmaiada no sofá. No que concerne a fantasmas, há três tipos de pessoas neste mundo: as que acreditam em fantasmas, as que não acreditam em fantasmas, e as “outras”. De todas elas, as “outras” são as mais perigosas. Não acreditam nem deixam de acreditar, e lidam com esses fenómenos como crianças a brincar com fósforos.

Quando a ambulância veio, eu expliquei-lhes que a moça se tinha sentido mal e que tinha caído redonda no meio do chão, batendo com a cabeça com muita força. Do telemóvel dela, descobri o contacto dos pais dela e informei-os de que tinham a filha no hospital. Depois disso, fui directa para a agência.

Junho 18, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 2. A Casa do Lumiar, Episódio 1 | , , , , , , | 4 Comentários

Fantasmas na Terra

Casas Assombradas

Fotografia de Vitor Reinecke
(www.olhares.com/VITORREI)
(www.focusnatura.com)

Sempre houve fantasmas e sempre haverá fantasmas. É tão certo como haver vida aqui na Terra. Na verdade, o termo “fantasmas” não chega, nem pouco mais ou menos, para definir tudo o que eu já vi até hoje, mas já lá iremos.

Para já, deixem-me dizer-vos que todos os seres vivos são compostos por duas coisas: a parte que vive e respira, e a parte espiritual. Normalmente, quando a parte que vive e respira deixa de respirar e de viver, a parte espiritual separa-se do corpo e parte desta Terra em direcção ao Além, ao Outro Mundo, à Outra Vida, ou o que lhe queiram chamar. O problema é que nem todos partem de forma pacífica, chegando ao ponto de nem sequer partirem de todo.

E é aí que os sarilhos começam.

Há quem permaneça entre esta vida e o Outro Lado, mesmo depois de ter morrido, e de o seu corpo se ter transformado em pó. Por qualquer razão, não conseguem – ou não querem – fazer a travessia e ficam por cá, alguns deles durante séculos. Há muito que deixaram de existir e no entanto, continuam a existir, embora não no mesmo plano existencial que nós. Estão entre vidas, perdidos num limbo sem fim, donde não há saída possível, a menos que sejam ajudados. O que é problemático, dado que nem sempre os conseguimos ver, e eles nem sempre conseguem ver-nos a nós.

Eu diria que, sem qualquer tipo de treino, apenas um por cento da população mundial consegue vê-los sem esforço. Significa isto que há no mundo inteiro cerca de sessenta milhões de pessoas que conseguem vislumbrar estas presenças do Além. Destas sessenta milhões, sabem quantas é que mantém a sanidade mental depois de terem um encontro com uma dessas aparições?

Muito, muito poucas.

Junho 7, 2008 Publicado por C.A.Margonper | 1. Fantasmas na Terra, Episódio 1 | , , , , , , | 2 Comentários